4º Domingo do Advento | Ano A | 21/12/2025
Texto Bíblico: Mateus 1,18–24
O relato do nascimento de Jesus segundo Mateus não é apenas uma narrativa de origem, mas um profundo itinerário espiritual. Em Mt 1,18–24, o evangelista não concentra sua atenção em Maria, diferente do que acontece no Evangelho de Lucas, mas em José, um homem silencioso, justo e profundamente humano. É nele que a fé aparece em processo de amadurecimento. Não uma fé triunfalista, marcada por certezas absolutas, mas uma fé que nasce da ruptura, da crise e da necessidade de confiar quando o controle já não é possível.
Mateus convida a refletir sobre uma das experiências mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais fecundas da vida espiritual: aprender a abrir as mãos, abandonar a ilusão do controle e permitir que Deus conduza a história por caminhos que não escolhemos previamente.
José é apresentado como um homem simples, inserido numa vida comum e previsível. Seu projeto não é grandioso: casamento, estabilidade, trabalho honesto, rotina tranquila. Tudo indica que sua existência caminhava dentro do que poderíamos chamar de “normalidade estruturada”. Ele não vivia grandes conflitos morais nem aparentava crises espirituais.
A notícia da gravidez de Maria, no entanto, interrompe brutalmente esse percurso. A vida que parecia seguir um roteiro claro entra em colapso. O automático se rompe. Nada mais pode ser simplesmente executado como antes. É nesse ponto que a fé começa a emergir.
A experiência de José revela uma verdade fundamental: a fé não nasce quando tudo funciona, mas quando a realidade nos escapa. Enquanto a vida responde às nossas expectativas, não há espaço real para a confiança, mas apenas para a gestão. E particularmente eu não vim para este mundo para gerir, mas para fazer a experiencia do existir. A fé surge quando somos forçados a admitir que não controlamos tudo, que não compreendemos tudo e que nem sempre conseguimos explicar o que nos acontece. Segundo o evangelista Mateus, José representa todos aqueles que descobrem que a fidelidade a Deus não nos isenta de crises, mas nos coloca dentro delas de um modo novo.
O evangelista apresenta José como “justo”. Essa palavra é decisiva para a compreensão do texto. José não é um pecador público que precisa mudar de comportamento. Ele já vive corretamente, age segundo a Lei, busca fazer o bem. Sua conversão, portanto, não é moral no sentido clássico, mas interior.
A conversão exigida de José é mais profunda: trata-se de uma transformação interior. Ele é chamado a converter-se:
- da necessidade de ter todas as respostas;
- da lógica de que tudo precisa fazer sentido imediatamente;
- da tentação de resolver o mistério apenas com critérios humanos.
Essa conversão interior é aquilo que a tradição bíblica chama de metanoia (vale rever a reflexao do segundo domingo do advento): mudança de mentalidade, de olhar, de forma de se posicionar diante da realidade. José aprende que ser justo não significa apenas fazer o correto, mas acolher o mistério quando o correto já não é evidente.
Trata-se de uma conversão silenciosa, sem discursos, sem milagres visíveis, sem reconhecimento público. É a conversão de quem aprende a confiar mais do que compreender.
Diante da situação, José elabora uma solução discreta. É uma decisão ética, cuidadosa, aparentemente irrepreensível. No entanto, Deus não confirma seu plano. O anjo não aparece para dizer: “Está tudo certo, faça como pensou”. Ao contrário, Deus redefine completamente o lugar de José na história da salvação.
José não será apenas marido de Maria. Ele será guardião do mistério, pai legal de Jesus, aquele que dará nome, proteção e inserção histórica ao Filho de Deus. Seu projeto pessoal se transforma em missão.
Eis um dos pontos centrais do texto: Deus não entra para ajustar nossos planos, mas para ampliá-los. A fé amadurece quando aceitamos que Deus não existe para validar nossas expectativas, mas para nos conduzir além delas.
Essa experiência aproxima José de outras figuras bíblicas, como João Batista, que também precisou revisar suas expectativas sobre o Messias. Em ambos os casos, o amadurecimento da fé passa pela frustração de imagens prévias de Deus.
Também o modo como Deus se comunica com José é profundamente simbólico. O anjo aparece no sonho. Não no momento da ação, da decisão racional, do planejamento estratégico, mas no descanso, no abandono da vigilância consciente.
Na linguagem bíblica, o sonho é o lugar da entrega, do desarme, da abertura ao mistério. Deus fala quando José deixa de tentar dominar a situação. Isso revela uma pedagogia espiritual fundamental:
A fé madura não nasce da soma de informações, mas da capacidade de confiar sem garantias totais. José não recebe um roteiro detalhado do futuro. Recebe apenas uma palavra suficiente para dar o próximo passo.
Eis aqui um aspecto do texto que desafia uma espiritualidade marcada pela ansiedade, pela necessidade de previsibilidade e pela busca constante de segurança. O Evangelho aponta outro caminho: confiar mesmo quando não se vê claramente.
Pessoalmente sinto o clímax do texto quando o nome é atribuído à criança que ainda irá nascer: Emanuel, “Deus conosco”.
O Evangelho não promete um Deus que evita crises, elimina conflitos ou antecipa respostas. Promete um Deus que caminha junto.
Emanuel não é:
- o Deus que impede a dor;
- o Deus que resolve tudo antes que aconteça;
- o Deus que garante previsibilidade;
- o Deus que odeia;
- o Deus que condena;
- o Deus da guerra.
Emanuel é o Deus que sustenta por dentro, que permanece presente no meio da incerteza. A fé madura não consiste em compreender plenamente os desígnios de Deus, mas em confiar que Ele está conosco mesmo quando não compreendemos.
Essa dinâmica da fé encontra profunda ressonância na teologia contemporânea. O teólogo Karl Rahner afirma: “O cristão do futuro será um místico, isto é, alguém que experimentou algo, ou não será cristão.”
José é exatamente esse homem da experiência. Ele não domina conceitos, não formula tratados, não é preso a preceitos e ritos, não compreende plenamente o mistério. Ele experimenta Deus na obediência silenciosa, na confiança concreta, na fidelidade cotidiana.
Do ponto de vista filosófico, essa experiência dialoga diretamente com Søren Kierkegaard, para quem: “A fé começa precisamente onde o pensamento termina.”
José nos ensina que crer não é:
- controlar, mas confiar;
- não é explicar tudo, mas caminhar com Deus.
A maturidade espiritual não está em evitar a incerteza, mas em habitá-la com fé. Abrir as mãos do controle não é sinal de fraqueza, mas de profunda confiança. É nesse gesto que a fé deixa de ser infantil e se torna adulta.
José, o homem do silêncio, revela que a verdadeira grandeza espiritual nasce quando aceitamos que Deus não vem para cumprir nossos planos, mas para nos conduzir em um caminho maior do que poderíamos imaginar.
Teus sofrimentos podem estar atrelados a um desejo infantil: “Deus tem que confirmar o que eu penso.”
A fé madura não nasce da soma de informações, não é o quanto sei de Deus, mas o que dEle experimento na vida, que faz me traz sentido.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com