Natal de Jesus | Ano A | 24/12/2025
Textos Bíblicos: Mateus 1,1–25 | Lucas 2,1–14
Apesar de estarmos no Ano A da nossa Liturgia, no qual somos acompanhados predominantemente pelo Evangelho segundo Mateus, a noite de Natal nos apresenta, de modo muito significativo, a leitura do Evangelho segundo Lucas (Lc 2,1–14). Já na tarde do dia 24, a Palavra proclamada é o texto de Mateus 1,1–25.
Para dar continuidade às reflexões que temos construído desde o primeiro domingo do Advento, proponho contemplar o Natal a partir de Lucas, mas em diálogo com Mateus. Isso porque Mateus nos ajuda a responder à pergunta: de onde Jesus vem?, ao apresentar sua genealogia, sua história humana concreta; enquanto Lucas nos conduz a outra pergunta essencial: para quem Jesus vem? Unindo os dois evangelistas, somos convidados a compreender que Jesus nasce de uma humanidade real e vem para toda a humanidade.
Quando abrimos o Evangelho segundo Mateus, a primeira coisa que encontramos não é um milagre nem uma parábola, mas uma genealogia. Uma lista de nomes. E, à primeira vista, isso pode parecer distante da nossa vida. No entanto, essa lista diz muito mais sobre nós do que imaginamos.
A genealogia de Jesus não é uma coleção de santos perfeitos. Ela apresenta uma humanidade ferida, ambígua, marcada por falhas e recomeços. Mateus não esconde as fragilidades dos antepassados de Jesus. Entre tantos nomes, encontramos:
- Abraão, o pai da fé, que mente para salvar a própria vida;
- Jacó, que engana o irmão;
- Tamar, que precisa recorrer a um gesto extremo para obter justiça;
- Davi, o grande rei, que carrega em sua história o peso de uma morte planejada;
- Jeconias, que simboliza o fracasso político e espiritual do povo.
E, mesmo assim, é dessa história que Jesus nasce.
Isso revela uma verdade central da nossa fé: Deus não escolhe os melhores. Deus escolhe os reais. Jesus não vem de uma genealogia idealizada; Ele nasce de uma humanidade concreta, com luzes e sombras. Ele não vem corrigir a genealogia. Ele vem assumi-la.
E isso tem um impacto profundo na nossa vida espiritual. Muitas vezes pensamos que precisamos organizar tudo, resolver tudo, curar tudo, para então Deus entrar. O Evangelho nos mostra o contrário: Deus entra primeiro. Ele não espera uma humanidade perfeita; Ele entra nessa humanidade real, ferida, confusa — a nossa humanidade.
É aqui que o Evangelho segundo Lucas amplia ainda mais nosso horizonte. Se Mateus nos mostra de onde Jesus vem, Lucas nos revela para quem Ele vem.
Ao narrar o nascimento de Jesus, Lucas deixa claro que Ele:
- não nasce no centro do poder, mas à margem;
- não nasce no palácio, mas numa manjedoura;
- os primeiros a receber a notícia não são os sábios nem os religiosos influentes, mas os pastores, homens simples, invisíveis aos olhos da sociedade.
Além disso, Lucas conduz a genealogia até Adão, para afirmar que Jesus não pertence a um grupo exclusivo. Ele assume a condição humana inteira. Ele vem para todos, antes de qualquer rótulo religioso, social ou moral.
Por isso, Jesus não vem premiar os “bons”. Ele vem abraçar os feridos. Não vem confirmar quem já se sente justo, mas salvar quem reconhece sua fragilidade.
A genealogia e a manjedoura nos dizem a mesma coisa: Deus não tem vergonha da nossa história. Ele entra nela. Não apaga o passado, não ignora as feridas, mas as assume para transformá-las por dentro.
Celebrar o Natal não é celebrar um Deus distante que exige perfeição. É celebrar um Deus que nasce dentro da nossa história concreta, como ela é. Um Deus que vem de uma humanidade ferida e vem para uma humanidade ferida.
Porque é somente na nossa realidade concreta que Ele pode nascer. Ele não é uma fantasia. Ele é real.
O que nos impede de dizer:
- Minha história é confusa demais;
- Meu passado é pesado demais;
- Minha família é complicada demais.
Tua vida é o lugar ideal onde Ele escolhe se fazer presente.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com