Sagrada Família | Ano A | 28/12/2025
Texto Bíblico: Mateus 2,13–15.19–23
O evangelista Mateus apresenta uma fé profundamente encarnada, marcada por decisões concretas, deslocamentos dolorosos e confiança silenciosa. Longe de uma espiritualidade idealizada, o texto revela Deus agindo dentro da história humana, confiando sua obra a pessoas comuns e pedindo delas algo exigente: movimento.
Assim o evangelista apresenta José, que para proteger o Menino Jesus, entra na grande tradição bíblica da fé em movimento, aproximando-se de Abraão e Moisés. Com ele aprendemos que a fé madura não é feita de discursos, mas de passos dados na escuta.
Mateus desmonta qualquer expectativa de uma salvação espetacular. Deus não protege o Menino com exércitos celestes nem com sinais visíveis de poder. Ele confia o menino a José, um homem simples, trabalhador, silencioso.
Não há palavras de José registradas no Evangelho. Há apenas ações. E isso não é detalhe secundário: é teologia.
Deus age assim na história. Ele confia o que tem de mais precioso àqueles que não ocupam os centros de poder, mas que são capazes de escutar e agir. José não se destaca por títulos ou prestígio, mas por sua disponibilidade interior. A obra de Deus passa por suas mãos porque ele está disposto a carregar responsabilidades que não escolheu, mas que acolheu.
Essa lógica divina atravessa toda a Escritura: Deus não procura os mais fortes, mas os disponíveis. A pergunta que o texto nos devolve não é “somos capazes?”, mas: estamos dispostos a guardar a vida que Deus nos confia?
A experiência de José ecoa diretamente a de Abraão. Quando Deus chama Abraão, diz apenas: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai” (Gn 12,1). Não há roteiro, não há garantias, não há explicações detalhadas. Há apenas uma Palavra e um convite ao deslocamento.
Com José acontece algo semelhante. O anjo lhe diz: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito”. José não discute, não pede esclarecimentos, não adia. Ele parte.
Em ambos os casos, a fé começa quando o chão conhecido já não é suficiente para sustentar a obediência. Abraão deixa sua terra e sua rede de relações; José abandona casa, trabalho, estabilidade. Ambos entram numa experiência de desinstalação, onde fé não exige mapa, apenas disposição.
Partir dói porque rompe vínculos, desmonta projetos e expõe à insegurança. No entanto, a Bíblia é clara: quem não parte nunca entra plenamente na promessa. A fé, aqui, não é um sentimento consolador, mas uma decisão que exige coragem e desapego.
A relação entre José e Moisés é ainda mais profunda. Moisés nasce sob um decreto de morte: o poder teme o futuro e decide eliminar as crianças. A salvação começa com gestos simples e arriscados de uma mãe que esconde, num cesto lançado ao rio, uma vida confiada ao desconhecido.
Jesus também nasce sob um regime que mata crianças. Herodes, como o faraó, vê na vida nascente uma ameaça. E novamente, Deus não responde com violência, mas com proteção frágil. José foge para salvar o Menino.
Aqui se revela um princípio central da fé bíblica: obedecer a Deus é proteger a vida, especialmente quando ela está ameaçada. Não se trata de esperar milagres espetaculares, mas de agir concretamente para contribuir com os próprios dons.
José, assim como Moisés, compreende que a fé verdadeira não se refugia em espiritualizações vazias, mas se traduz em escolhas práticas, mesmo quando essas escolhas custam caro.
Outro detalhe importante ressaltado pelo evangelista Mateus é que José se levanta de noite. Esse detalhe é teologicamente riquíssimo. Na Escritura, a noite é o tempo da incerteza, do risco, da confiança pura. Não se vê o caminho inteiro, apenas o próximo passo.
Moisés entra no mar sem garantias de retorno.
José se levanta na noite, sem saber quanto tempo ficará no Egito nem como sustentará sua família.
Essa fé não exige clareza total. Ela confia mais na Palavra escutada do que nas próprias seguranças. José não espera o amanhecer, não consulta outros, não posterga. Ele age porque entende que adiar pode significar perder a vida.
A fé madura não elimina o medo, mas não se deixa governar por ele. Caminha mesmo tremendo, porque sabe que a fidelidade se constrói no movimento.
O evangelista ainda traz outro assunto para a reflexão: o “ser” estrangeiro e o preço desse estigma.
Abraão vive como estrangeiro na terra prometida.
Moisés foge para Madiã e depois caminha pelo deserto.
José se torna estrangeiro no Egito.
Ser estrangeiro, na Bíblia, não é apenas mudar de lugar geográfico. É viver sem garantias, sem controle, sustentado apenas pela promessa. É perder status, previsibilidade e conforto.
José aceita esse preço para proteger o Menino. Aqui está o coração da fé bíblica: a vida do outro vale mais do que a própria estabilidade. A fidelidade a Deus frequentemente exige atravessar zonas de insegurança, onde já não se tem domínio sobre o futuro.
Essa experiência continua atual. Muitas vezes, ser fiel ao Evangelho significa aceitar não estar “em casa”, em estruturas, ambientes, ideologias ou escolhas que ameaçam a vida, a dignidade e a verdade.
Depois da fuga e do retorno interrompido pelo medo, José conduz a família a Nazaré. Não à Jerusalém, centro do poder religioso, mas a uma cidade simples, quase insignificante, e ali Jesus cresce e a salvação amadurece.
Nazaré ensina que Deus não depende de visibilidade. O extraordinário de Deus nasce no ordinário da vida: trabalho, rotina, família, silêncio. A fidelidade diária constrói o Reino muito mais do que grandes gestos ocasionais.
José aprende que a missão não termina quando o perigo passa. Ela continua no cuidado cotidiano, na perseverança discreta, na construção paciente da vida. Ele não é um herói isolado, pois caminha na mesma estrada de Abraão e Moisés: homens que creram em movimento, que protegeram a vida ameaçada, que aceitaram a condição de estrangeiros e obedeceram sem garantias. E assim é a fé cristã: não é feita apenas de palavras ou intenções, mas de passos dados na confiança.
Às vezes, é preciso ter coragem de partir, abandonar, sair, superar não apenas lugares geográficos, mas crenças, ideologias, situações que consomem a vida e a própria alma. Quantas dessas coisas estão consumindo a alma humana?
Sim! “Partir” dói, mas se Abraão, Moisés, José e tantos outros não tivessem partido, não conheceríamos a boa nova, a misericórdia e a ressignificação da vida humana por meio do amor atitude.
José não esperou a aposentadoria, feriado, estradas melhores, pessoas melhores ou uma condição econômica e social que fosse mais digna. Ele escolheu fazer sua parte com esperança, liberdade e confiança. Sem dizer nenhuma palavra, deixa sua marca, pois não se trata do quanto se diz, mas do quanto se confia.
Você está disposto a se levantar e caminhar quando Deus te chama, mesmo na “noite”?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com