Mãe de Deus | Ano A | 01/01/2026

Tema: As sete falas de Maria
Texto Bíblico: Lucas 2,16–21

O Evangelho de Lucas, ao narrar a visita dos pastores ao presépio (Lc 2,16–21), nos conduz ao coração do mistério do Natal. Entre o ir apressado dos pastores, o anúncio entusiasmado e o louvor que ecoa, destaca-se uma presença silenciosa: Maria. Ela não explica, não interpreta em voz alta, não disputa sentidos. O evangelista afirma apenas: “Maria guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19).

Esse silêncio não é ausência de fé, mas sua forma mais madura. Maria não é passiva, é profundamente ativa por dentro. Sua atitude revela que há experiências de Deus que não se resolvem com palavras imediatas, mas com acolhimento interior, tempo e fidelidade.

Maria fala pouco e isso é revelador

Se percorremos os Evangelhos, percebemos algo surpreendente: Maria fala apenas sete vezes, e nunca para si mesma. Em todas as suas falas, sua palavra é sempre relacional, obediente e orientada para Deus e para a vida.

Quando Maria fala, é para:

  • Acolher Deus
    “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
    Aqui não há negociação nem exigência de garantias. A palavra de Maria é abertura total. Ela não pede explicações completas, apenas oferece a própria vida como espaço para a ação de Deus.
  • Louvar a Deus
    “A minha alma engrandece o Senhor…” (Lc 1,46–55).
    O Magnificat não é autopromoção espiritual, mas reconhecimento de que Deus age na história concreta, especialmente a partir da pequenez. Maria empresta sua voz para que Deus seja glorificado.
  • Interceder pela vida
    “Eles não têm vinho” (Jo 2,3).
    Em Caná, Maria não faz discursos nem ordens. Ela percebe uma necessidade humana concreta e a apresenta a Jesus. Sua palavra nasce da atenção e da compaixão.
  • Conduzir a Jesus
    “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).
    A última palavra de Maria nos Evangelhos não aponta para si, mas para o Filho. Ela desaparece para que Cristo apareça. Toda verdadeira espiritualidade mariana conduz inevitavelmente a Jesus.

Maria fala pouco porque não precisa dizer muito. Sua vida inteira se torna Palavra encarnada. Antes de anunciar com os lábios, ela anuncia com a existência.

O silêncio que gera sentido

Em Lc 2,16–21, os pastores falam, contam, espalham a notícia. Maria, ao contrário, guarda e medita. Não porque despreze o anúncio, mas porque sabe que o mistério exige escuta profunda. Ela nos ensina que a fé não se reduz à reação imediata nem à explicação rápida. Há acontecimentos que só revelam seu sentido quando passam pelo coração.

Num tempo marcado pelo excesso de palavras, opiniões e ruídos, Maria nos recorda que nem tudo precisa ser dito, muitas coisas precisam ser vividas. O silêncio de Maria não é vazio, mas fecundo. É o silêncio de quem confia que Deus continua agindo, mesmo quando ainda não compreendemos tudo.

Entre o imaginado e o real

Há uma crítica sutil, mas profunda, no exemplo de Maria: gastamos muito tempo fantasiando e pouco tempo habitando o real. Criamos discursos sobre fé, planos ideais de vida, expectativas sobre Deus e sobre os outros. Maria, porém, vive no concreto: uma criança para cuidar, uma família para proteger, uma rotina simples atravessada pelo mistério.

Sua fé não se expressa em discursos elaborados, mas em disponibilidade, confiança e fidelidade cotidiana. Ela não controla os acontecimentos, mas permanece neles. Não tenta antecipar o futuro, e sim sustentar o presente com esperança.

Maria, Mãe de Deus e escola de fé

Ao contemplarmos Maria como Mãe de Deus, não estamos exaltando apenas um título, mas reconhecendo um modo de viver a fé. Ela nos educa para uma espiritualidade menos ansiosa e mais encarnada, menos falada e mais vivida.

Que Maria nos ensine:

  • a falar menos, quando as palavras não constroem;
  • a escutar mais, sobretudo o que Deus diz no silêncio;
  • a viver no concreto da vida, onde o Verbo continua se fazendo carne.

O Evangelho não nos pede grandes discursos, mas corações disponíveis. Como Maria, somos chamados a guardar, meditar e, sobretudo, permitir que Deus encontre morada em nós. Essa é a fé que transforma o mundo. Muito diferente daquela que impressiona pelas palavras, pois:

Jesus não diz: “discursai uns aos outros”; Ele diz: “ide” e anunciai com a vida, não com discursos.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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