IV Domingo do Tempo Comum | Ano A | 01/02/2026
Texto Bíblico: Mateus 5,1–12a
O IV Domingo do Tempo Comum dá continuidade direta ao caminho iniciado nos domingos anteriores. Após a Epifania, o Batismo do Senhor e o III Domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo Mateus nos conduz a um novo patamar da revelação: não apenas quem é Jesus e como Ele redireciona sua missão, mas que tipo de vida nasce quando alguém vive a partir dessa identidade.
No III Domingo refletimos que Jesus não reage, Ele redireciona. Vimos que sua fidelidade à missão não se expressa em rigidez, confronto ou impulsividade, mas em discernimento, escuta e liberdade interior. Agora, em Mt 5,1–12a, somos convidados ao passo seguinte: uma identidade enraizada gera uma vida capaz de interrupção.
As Bem-aventuranças não são um ideal abstrato nem um código moral. Elas descrevem uma existência que já não é governada apenas por agendas, previsões e controles, mas por uma disponibilidade interior ao outro e a Deus.
Mateus situa Jesus numa montanha. O detalhe não é apenas geográfico, mas profundamente simbólico. A montanha recorda o Monte Sinai, lugar da revelação (cf. Ex. 19). Contudo, algo decisivo muda: Jesus não proclama leis externas nem impõe normas. Ele se senta e ensina.
Ensinar, aqui, já é uma forma de interrupção. Jesus interrompe a lógica do medo, da imposição e do controle. O mesmo Jesus que, diante da prisão de João Batista, não reage impulsivamente, agora interrompe a expectativa de um Messias reativo, violento ou endurecido.
Sua autoridade não nasce da pressão, mas da coerência entre identidade e vida. Ele não governa pela força, mas pela presença.
As Bem-aventuranças não começam com ordens, mas com uma declaração: “Bem-aventurados…”. Jesus não exige, Ele revela. Felizes não são os eficientes, mas os disponíveis.
Aqui se revela um critério novo: a felicidade do Reino não cabe na agenda. Ela acontece quando a vida é interrompida por algo maior do que nossos planos (compromissos).
Compromissos são previsíveis. A compaixão não, pois acontece quando não era conveniente. O compromisso organiza; a compaixão desorganiza. O compromisso mantém distância segura; a compaixão expõe ao encontro. Compromisso cabe na agenda. A compaixão rompe a agenda. Por isso, compaixão não é compromisso. Compaixão é interrupção.
“Bem-aventurados os pobres em espírito.” Jesus não exalta a miséria nem glorifica a falta. Ele aponta para uma liberdade interior: a de quem não absolutiza seus esquemas, suas certezas ou sua própria imagem.
O pobre em espírito não vive agarrado ao controle. Por isso, pode ser interrompido. Não precisa reagir a tudo, não precisa defender-se o tempo todo, não precisa vencer todas as discussões. Quem vive a partir da identidade filial não transforma convicções em armas nem a fé em blindagem. Quem sabe quem é não precisa se defender o tempo todo.
“Bem-aventurados os mansos… os misericordiosos… os puros de coração.” Essas palavras desmontam a crença de que endurecer é sinal de força. Mansidão não é passividade; é força que não reage por impulso.
Aqui, as Bem-aventuranças se iluminam explicitamente pelo Evangelho do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25–37). O sacerdote e o levita são figuras do compromisso: veem, avaliam, seguem adiante. São corretos, organizados, previsíveis, estão indo cumprir seus planos.
O samaritano, porém, interrompe a viagem. Ele não ajuda quando pode, mas quando é necessário. Sua compaixão rompe a agenda, desorganiza o plano e expõe ao encontro.
Jesus age assim ao longo de todo o Evangelho: interrompe o caminho para olhar, tocar e ouvir. E Deus vai ainda mais longe: interrompe a própria história entrando nela. Quem só vive de compromissos ajuda quando pode; quem vive de compaixão ajuda quando é necessário.
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.” Jesus não fala de punição, mas de desejo profundo por relações restauradas. A justiça do Reino não nasce da pressa de julgar, mas da capacidade de se deixar tocar. Aqui se confirma algo essencial: a intenção de Jesus é salvar, não condenar. Muitas vezes, chamamos de zelo aquilo que é incapacidade de interromper o próprio julgamento.
Viver a partir dessa lógica não é confortável. Quem se deixa interromper pelo Evangelho incomoda. Quem não reage com violência nem se submete às lógicas do poder torna-se sinal de contradição.
Aqui se fecha o arco iniciado no III Domingo: Jesus não reage à prisão de João; Ele redireciona a missão. Do mesmo modo, o discípulo aceita que a fidelidade ao Reino interrompa até mesmo o desejo de reconhecimento. A fidelidade ao Evangelho incomoda porque desinstala as lógicas do controle.
As Bem-aventuranças não descrevem heróis, nem enaltecem aqueles que se autointitulam enviados de Deus. Ao contrário, elas revelam pessoas reais, em processo, que aprenderam a viver menos protegidas e mais disponíveis.
Mateus 5,1–12a confirma todo o caminho percorrido:
- Jesus não funda um território nem um código moral fechado;
- Ele revela uma nova maneira de existir;
- O Reino não se impõe de fora, interrompe por dentro.
Por isso, a pergunta final não é apenas espiritual, mas existencial:
“Quem vive do Evangelho, se deixa interromper.”

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com