V Domingo do Tempo Comum | Ano A | 08/02/2026

Tema: Fragilidade interior que alimenta rigidez exterior
Texto Bíblico: Mateus 5,13–16

Quando alguém diz o que você não quer ouvir, em quem você se transforma? A reação quase nunca é neutra. Podemos nos fechar, nos defender, atacar, silenciar com ressentimento, ou permanecer, mesmo desconfortáveis, deixando que a palavra do outro nos atravesse. Esse instante revela não apenas o conteúdo do que foi dito, mas quem estamos nos tornando.

É exatamente aqui que Mateus 5,13–16 toca o nervo da questão. Jesus não propõe um ideal moral a ser alcançado, Ele afirma que para segui-lo é preciso ter identidade: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo.”

Sal e luz não se impõem, reagem ao contato. O sal arde quando encontra a ferida, a luz revela quando encontra a escuridão.

Por isso, ouvir o que não se quer costuma provocar resistência. Não porque seja falso, mas porque ameaça a imagem que cada um constrói de si mesmo.

O problema não é o ardor do sal, é quando se usa demais e ele cria uma casca impenetrável, que causa desidratação, deixa a “carne” seca e dura; na dimensão espiritual, é o próprio coração humano.

O problema não é a luz, mas quando esta é colocada “debaixo da vasilha” para não enxergar o que precisa ser visto em si mesmo.

Nesse ponto, surge um desvio sutil e perigoso, onde a religião é vivida como armadura. Em vez de caminho de conversão, passa a funcionar como defesa do ego e, consequentemente, das próprias vontades.

A linguagem sagrada vira argumento, a doutrina torna-se munição, e Deus um recurso para encerrar a conversa, às vezes no grito ou nas ofensas. Não se busca a verdade, busca-se proteção. Não é zelo, é medo disfarçado de fidelidade.

Quando a fé é usada assim, ela não ilumina, mas ofusca. Não conserva, mas endurece. A pessoa não se deixa interpelar, ela se arma contra o outro, e se torna incapaz de questionar a si mesma.

Surge aqui um paradoxo: quanto maior a fragilidade interior, maior pode ser a rigidez exterior. A religião, então, não transforma; ela paralisa e acorrenta o indivíduo apenas àquilo que ele quer.

Não se trata de como reagir corretamente em relação ao outro, mas em relação a si mesmo.

Quando ironizo, desqualifico, me fecho ou “me escudo” em frases religiosas, talvez eu não esteja defendendo a verdade, mas apenas escondendo a luz para não encarar o que habita dentro de mim, isto é, minhas sombras interiores.

Aqui encontra-se a inversão silenciosa do Evangelho, talvez uma das mais perigosas.

Usar a luz para julgar é, muitas vezes, uma forma sofisticada de não olhar a própria sombra. Quando a claridade é jogada para fora, nunca para dentro de si. Ilumina-se o erro do outro para que ninguém perceba o que em mim ainda é escuridão.

A luz, que deveria orientar o caminho de seu próprio caminho, vira exposição do outro. Deixa de ser uma autoanálise para buscar enquadrar o outro. Não convida à comunhão, mas provoca uma discussão, na tentativa de fazer o outro se sentir inferior.

Já o sal, quando perde sua lógica evangélica, deixa de conservar a vida e passa a endurecer o coração. Em vez de preservar, cria couraça. Em vez de dar sabor, torna-se rigidez, aspereza e inflexibilidade.

Jesus, no Evangelho segundo Mateus, ensina que sal e luz não existem para separar os “puros” dos “impuros”, mas para levar todos, bons e maus, a buscar habitar a própria alma.

Quando se usa a luz para julgar, não se está sendo luminoso, mas cego à própria noite.

São João da Cruz ensina:
“Na noite escura, Deus apaga as luzes que usamos para nos afirmar, para que reste apenas a luz que nos transforme.”

A sombra negada em si mesmo não desaparece; ela apenas é projetada sobre o outro. E a fé que não integra a própria sombra acaba precisando de inimigos para se sustentar.

Outro risco é sentir-se tão iluminado que o próprio brilho começa a cegar a você mesmo e aos outros.

A luz, quando deixa de ser serviço, vira holofote. E holofote não revela: ofusca. No Evangelho segundo Mateus, Jesus diz que a luz existe “para que vejam as boas obras e glorifiquem o Pai”. O foco não é a luz em si, nem quem a carrega, mas o caminho que ela permite enxergar.

Quando se quer iluminar demais, geralmente não é a verdade que está em jogo, é a ansiedade de corrigir, a necessidade de ter razão, o impulso de controlar a consciência do outro. E aqui volta a pergunta inicial: “Por que o que o outro faz ou fala incomoda tanto?”

Para ajudar a responder essa pergunta é preciso compreender que iluminar não é expor os erros do outro, mas encarar os próprios erros.

No final de tudo, no juízo final, Deus não vai te perguntar o que os outros fizeram, mas o que você fez.

Diante de Deus, você não será relator da vida do outro, mas terá que dar conta de como protagonizou a própria vida.

Existe uma violência espiritual muito silenciosa que é querer jogar luz onde o outro ainda não consegue olhar. E muitas vezes isso não nasce de má intenção, mas do excesso de certeza.

Quem quer iluminar demais costuma:

  • confundir verdade com urgência;
  • confundir zelo com impaciência;
  • confundir clareza com dureza.

E quando isso acontece, o paradoxo se manifesta:

  • a luz que deveria abrir os olhos fecha;
  • a palavra que deveria libertar paralisa;
  • a compreensão torna-se condenação.

Jesus não andava com holofotes, mas caminhava com lamparinas, isto é, luz suficiente para o próximo passo. O Evangelho deve ser a luz suficiente para o teu próximo passo.

Por isso, a fé madura sabe regular a luz. Sabe quando falar, quando silenciar, quando apenas deve permanecer ao lado.

Jesus não vem condenar o mundo, mas ensinar que podemos torná-lo mais habitável à medida que cada um encara sua própria escuridão e se torna mais acolhedor.

“Minha luz ajuda o outro a caminhar, ou só me ajuda a me sentir do lado certo?

Meu sal preserva a vida, ou apenas reforça a couraça que construí para que não descubram a frieza e infelicidades presentes na minha alma?”

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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