III Domingo da Quaresma | Ano A | 08/03/2026
Texto Bíblico: João 4,5-15.19b-26.39a.40-42
O Evangelho relata um detalhe aparentemente simples: a mulher deixa o cântaro (jarro) e corre para a cidade (Jo 4,28). À primeira vista, parece apenas um gesto prático. No entanto, no Evangelho de João nada é apenas detalhe. O cântaro que fica junto ao poço é um símbolo importante.
A mulher foi ao poço para buscar água, isto é, para resolver uma necessidade imediata da vida. Mas depois do encontro com Jesus, ela já não volta para casa com água. Ela volta com algo muito mais profundo: uma experiência de sentido. O jarro permanece ali porque aquilo que antes organizava sua rotina já não ocupa mais o centro de sua vida. Algo novo aconteceu dentro dela.
Esse gesto revela uma transformação interior. Quem encontra a água viva não continua vivendo da mesma forma. Não porque passa a ter respostas para tudo, mas porque descobre uma fonte diferente de sustentação.
A mulher que chegou ao poço carregando sua história fragmentada, suas relações mal resolvidas e sua sede silenciosa, agora retorna à cidade com uma palavra que não nasce da teoria, mas da experiência:
Aquele que os discípulos contemplaram na montanha (cf. homilia do II Domingo da Quaresma) agora aparece no poço, no meio da vida comum. A glória vista no alto se torna presença concreta no encontro com quem tem sede.
Curiosamente, ela não apresenta uma doutrina, nem oferece um discurso elaborado. Ela apenas relata um encontro. E esse testemunho simples se torna o início de um movimento surpreendente: muitos samaritanos passam a acreditar.
Primeiro, por causa da palavra dela. Depois, porque eles mesmos encontram Jesus e dizem:
Esse processo é profundamente pedagógico. A fé muitas vezes começa pelo testemunho de alguém, mas precisa amadurecer até se tornar experiência pessoal. A mulher samaritana não substitui o encontro dos outros com Cristo; ela apenas abre o caminho.
O testemunho verdadeiro não prende as pessoas a si mesmo, mas as conduz para além de si.
A pedagogia da Quaresma
Quando olhamos para esse episódio dentro do caminho da Quaresma, percebemos algo ainda mais interessante. A liturgia não coloca esse Evangelho isoladamente. Ele faz parte de uma pedagogia espiritual que se desenvolve ao longo dos domingos.
No I Domingo da Quaresma contemplamos as tentações de Jesus no deserto. Ali aprendemos que a vida não pode ser organizada apenas pelo impulso da necessidade imediata.
No II Domingo a Igreja nos leva ao monte da Transfiguração. Ali o Pai declara:
Se o deserto revela a identidade que não se vende às tentações e o monte revela a identidade que precisa ser escutada, o terceiro domingo revela o que acontece quando essa escuta encontra a sede humana.
A sede que revela o coração
Jesus não começa com uma correção moral, nem com um discurso religioso. Ele começa com um pedido simples:
A partir dessa necessidade concreta, Ele conduz a mulher a reconhecer uma sede mais profunda que atravessa toda a sua história.
Enquanto a pessoa acredita que pode saciar sua vida apenas com aquilo que sempre buscou, continuará voltando ao mesmo poço. O encontro com Jesus rompe essa repetição.
Quando a mulher deixa o jarro, ela não abandona apenas um objeto. Ela deixa o símbolo de uma vida organizada em torno de necessidades que nunca se resolvem completamente.
Aquilo que antes parecia indispensável perde sua centralidade. Não porque a água deixou de ser necessária, mas porque agora existe uma fonte interior que muda a forma de viver todas as outras necessidades.
O movimento do encontro
Quem encontra sentido não se fecha em si mesmo. A experiência autêntica de Deus não cria isolamento; cria movimento.
A mulher não permanece junto ao poço contemplando sua descoberta. Ela volta para a cidade. Ela entra novamente no espaço da convivência humana, agora com um olhar diferente.
A experiência de ser conhecida por Jesus — “Ele me disse tudo o que eu fiz” — não a destrói; ao contrário, a liberta. A verdade que poderia humilhá-la torna-se o início de uma nova dignidade.
É por isso que seu testemunho tem força. Não é a autoridade de quem domina um discurso religioso, mas a credibilidade de quem foi tocado na própria história.
O encontro com Cristo não apagou o passado da mulher, mas transformou a forma como ela se relaciona com ele.
O texto termina mostrando que os samaritanos permanecem dois dias com Jesus. A fé que nasce do testemunho amadurece no encontro.
Esse caminho continua sendo o caminho da Igreja. A fé nasce muitas vezes porque alguém diz: “Venha ver”. Mas ela se consolida quando cada pessoa descobre por si mesma quem é Cristo.
Nenhuma experiência emprestada sustenta uma vida inteira.
Aquilo que parece indispensável, mas que apenas mantém minha rotina de sede.
O encontro com Cristo não elimina nossas necessidades humanas, mas pode transformar a fonte de onde buscamos sustentação.
Quando isso acontece, a fé deixa de ser apenas prática religiosa e se torna experiência viva. E quem experimenta a água viva dificilmente permanece em silêncio.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com