IV Domingo da Quaresma | Ano A
Texto Bíblico: João 9,1-40
À primeira vista, o capítulo 9 do Evangelho de João parece apenas mais um relato de milagre. Jesus encontra um homem cego de nascença e lhe devolve a visão. Porém, quando lemos o texto com atenção, percebemos que João não está interessado apenas em narrar um milagre. O evangelista constrói uma verdadeira catequese sobre cegueira espiritual, liberdade interior e o processo de chegar à fé.
Curiosamente, o centro do texto não é o milagre em si, mas tudo aquilo que acontece depois dele.
Jesus encontra um homem que nunca viu a luz. Diferente de outras curas narradas nos Evangelhos, Ele não pronuncia uma palavra. Cospe no chão, faz lama com a saliva e a coloca sobre os olhos do cego, dizendo-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”, palavra que significa “Enviado”.
Esse gesto é profundamente simbólico. A lama recorda o gesto da criação narrado no Gênesis, quando Deus forma o ser humano a partir do pó da terra. É como se Jesus estivesse recriando os olhos daquele homem. Não se trata apenas de uma cura, mas de uma nova criação.
A verdadeira cegueira
O Evangelho não se detém na cura física. Aos poucos, o texto revela algo muito mais profundo: o verdadeiro drama não está na cegueira do homem, mas na cegueira daqueles que acreditam enxergar.
Quando o homem retorna vendo, a primeira reação das pessoas não é alegria, mas confusão. Os vizinhos começam a discutir se ele é realmente a mesma pessoa. O próprio homem precisa afirmar:
O encontro com Cristo não apenas devolve a visão, mas reorganiza a identidade da pessoa. A transformação é tão profunda que aqueles que conviviam com ele já não sabem mais quem ele é.
Logo começa uma sequência de interrogatórios. O homem é levado aos fariseus porque a cura aconteceu em dia de sábado. O problema, portanto, não é o milagre. O problema é que Jesus fez lama no sábado.
A discussão religiosa passa a ser mais importante do que a vida humana transformada diante deles.
Quando a religião perde o humano
Alguns fariseus afirmam: “Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado.” O critério deles não é a vida restaurada, mas a regra aparentemente violada.
Enquanto isso, algo interessante acontece com o homem curado. Sua compreensão sobre Jesus cresce progressivamente.
- No início, ele apenas relata o que aconteceu.
- Depois afirma: “Ele é um profeta.”
- Por fim reconhece: “Eu creio, Senhor.”
A fé dele amadurece passo a passo.
Os líderes religiosos, porém, recusam-se a aceitar o fato. Chamam os pais do homem para confirmar se ele realmente nasceu cego. Os pais confirmam, mas evitam envolver-se por medo das autoridades religiosas.
O homem então é deixado sozinho diante de um verdadeiro tribunal religioso.
A força da experiência
Nesse momento ocorre algo surpreendente. Aquele que antes dependia da esmola agora enfrenta os líderes religiosos. Ele não possui formação teológica nem argumentos sofisticados, mas possui algo mais forte: a experiência.
A reação final dos fariseus revela o fechamento deles:
E o expulsam da comunidade.
Aqui aparece uma inversão profunda. Aquele que agora vê é colocado para fora, enquanto aqueles que se consideram guias permanecem dentro das estruturas religiosas.
O encontro definitivo
O Evangelho não termina com a expulsão. Jesus fica sabendo do que aconteceu e vai ao encontro dele.
Jesus pergunta:
O homem responde com sinceridade: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”
Então vem a revelação:
E ele responde:
O processo está completo. O homem que nasceu sem enxergar passou por três etapas fundamentais:
- recebe a visão física;
- enfrenta o conflito religioso;
- chega finalmente à fé.
Curiosamente, ele reconhece Jesus plenamente somente depois de ter sido expulso.
Quando a fé amadurece
Muitas vezes a fé amadurece justamente quando as seguranças que sustentavam nossa vida começam a desaparecer.
Esse movimento recorda também o Evangelho da samaritana no domingo anterior. Ela deixou o cântaro junto ao poço quando encontrou a água viva. Aqui, o homem cego perde sua antiga posição social e até sua pertença religiosa.
Em ambos os casos, algo precisa ser deixado para que a vida nova possa surgir.
O problema é acreditar que já se vê tudo.
Quem reconhece sua cegueira pode receber luz. Quem acredita possuir toda a luz permanece fechado.
Dentro do caminho da Quaresma, este Evangelho nos confronta com uma pergunta essencial:
Não é necessariamente a falta de informação. Muitas vezes é o excesso de certeza.
O encontro com Cristo continua revelando as cegueiras invisíveis que carregamos.
A verdadeira visão começa quando alguém tem coragem de admitir que ainda precisa aprender a ver.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com