II Domingo Tempo Pascal | Ano A | 12/04/2026
Texto Bíblico: João 20,19–31
Há uma ilusão silenciosa que atravessa a vida de muitos cristãos: acreditar que a fé nasce da compreensão, da clareza, da organização das ideias sobre Deus. Como se bastasse entender mais para garantir a fé. O Evangelho desmente isso de forma direta.
Os discípulos conheciam Jesus, caminharam com Ele, ouviram suas palavras e testemunharam seus milagres. Mas bastou a cruz e tudo desmoronou. O medo tomou conta, as portas foram trancadas, e a esperança foi ferida. A ideia não sustentou a realidade.
O relato não apresenta discípulos fortes, mas homens frágeis, feridos e desorientados. A cruz não apenas matou Jesus, ela desmontou tudo o que eles acreditavam saber.
Quando a ferida desmonta a ilusão
Enquanto tudo está sob controle, é fácil crer. Mas quando a vida rompe — no sofrimento, na perda, na falta de respostas — aquilo que era apenas ideia se mostra insuficiente.
A ferida não gera fé automaticamente. Ela pode gerar fechamento, revolta ou endurecimento. Mas possui algo que a ideia não tem: ela desmonta ilusões.
- a imagem que você construiu de si mesmo;
- o controle que acreditava ter;
- as respostas prontas que repetia.
A ferida expõe a verdade. E é nesse espaço que a fé pode nascer — não como teoria, mas como relação.
Tomé: a fé que precisa tocar
Tomé representa essa experiência. Ele não aceita uma fé de segunda mão. Não se contenta com o testemunho dos outros. Sua resistência nasce de uma ferida na esperança.
Jesus não o rejeita. Ao contrário, oferece suas próprias feridas:
O Ressuscitado não apaga a cruz. Ele a carrega. E isso muda tudo.
A fé cristã não nasce de uma ideia perfeita sobre Deus, mas do encontro com um Deus ferido pelo amor.
Quando a ferida não é integrada
Nem toda dor amadurece. Quando a ferida não é atravessada, ela pode gerar:
- fechamento;
- dureza;
- desconfiança;
- necessidade de controle.
A pessoa continua religiosa, mas não se torna livre. A dor passa a definir a identidade.
A fé como encontro
A fé não é explicação sobre Deus, mas relação com Ele. Uma fé baseada apenas em ideias:
- entende, mas não sustenta;
- conhece, mas não confia;
- organiza, mas não se entrega.
Já a fé que nasce da ferida:
- reconhece limites;
- abandona o controle;
- se abre à confiança.
As feridas transformadas
As marcas da cruz permanecem em Jesus. Isso revela que Deus não salva apagando a história, mas atravessando-a com amor.
- as feridas são memória, não prisão;
- são lembrança, não condenação;
- são história, não identidade fechada.
A fé cristã integra, redime e reorienta:
- Integra: não nega a dor;
- Redime: dá sentido ao sofrimento;
- Reorienta: transforma o passado em caminho.
A pergunta que permanece
A questão não é se você tem feridas — isso é inevitável. A questão é outra:
Sua fé nasce do que você entende ou do lugar onde você já não consegue mais se sustentar sozinho?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com