IV Domingo Tempo Pascal | Ano A | 26/04/2026
Texto Bíblico: João 10:1-10
Os últimos domingos do Tempo Pascal nos colocam diante de um processo espiritual exigente e, muitas vezes, ignorado. Não se trata apenas de celebrar a Ressurreição, mas de aprender a viver como quem encontrou o Ressuscitado.
Dois textos se entrelaçam de forma decisiva: João 20,19-31 e João 10,1-10. À primeira vista, parecem temas distintos, de um lado a dúvida de Tomé e de outro a imagem do Bom Pastor. Mas, quando lidos em continuidade, revelam um único caminho: a fé nasce na ferida, mas amadurece no discernimento da voz.
Aprendemos no II domingo da Pascoa que a fé não começa na certeza, começa na ruptura. O Evangelho de João 20 não apresenta discípulos fortes, mas homens feridos. Eles estão com medo, trancados e desorientados. E, no centro desse cenário, está Tomé, aquele que não aceita uma fé de segunda mão.
Vimos que Tomé não rejeita Jesus por orgulho, pois ele foi ferido na esperança. A cruz desmontou suas expectativas. E, por isso, ele não se contenta com discursos. Ele precisa tocar. E aqui está o ponto importante Jesus não elimina a ferida, mas ao contrario, Ele a apresenta: “Coloca aqui o teu dedo…”.
Isso redefine completamente a fé cristã: a fé não nasce da ideia (conceito), mas do encontro com um Deus que carrega as marcas da dor atravessada pelo amor
Tomé não chega à fé por raciocínio. Ele não lê um livro, mas mergulha na realidade do encontro: “Meu Senhor e meu Deus.” E nesse contexto aprendemos que a ferida pode fechar, ou abrir para a verdade. A ferida, por si só, não gera fé. Ao contrário ela pode causar fechamento, revolta e endurecimento. Mas também pode guiar para a verdade, humildade e abertura.
A diferença não está na dor, mas na resposta à dor. Tomé poderia ter se fechado, mas, quando encontra Cristo, permite que sua ferida seja atravessada. E é isso que muda tudo, pois a ferida deixa de ser lugar de ruptura e se torna lugar de revelação. Mas a fé não termina na experiência ela precisa amadurecer.
Enquanto o capítulo 20 de Joao mostra o nascimento da fé, no capítulo 10 ele fala da maturidade dessa fé. Quando Jesus afirma: “As ovelhas escutam a sua voz… e o seguem.” Ele não diz que elas seguem porque entenderam tudo, mas porque reconhecem a voz, e essa informação desloca completamente o eixo.
E por incrível que pareça hoje o problema não é falta de fé, mas excesso de vozes falando sobre fé. O cenário atual é muito diferente do dos discípulos, e ainda se vive o desafio não por falta orientação, mas de discernimento.
Estamos cercados por vozes, redes sociais, opiniões constantes e espiritualidades fragmentadas. Tudo fala. Tudo parece oferecer sentido. Tudo parece “funcionar”. Mas quase nada conduz a algo sólido. O resultado é uma fé dispersa, onde você escuta tudo, mistura tudo e retém apenas o que agrada. Isso não é fé madura, é consumo espiritual.
Eis um risco perigoso, confundir “reconhecer a voz” com afinidade emocional. Nem toda voz que conforta vem de Deus, e nem toda voz que confronta está errada. A voz do Pastor não se mede pelo quanto agrada, mas pelo que produz na vida concreta.
Jesus oferece um critério claro: “Eu vim para que tenham vida… e a tenham em abundância.” Nem toda voz que você segue produz bons frutos. E isso vai exigir que você examine essas vozes com muita coragem e honestidade.
É preciso se questionar:
- As vozes que você tem seguido te tornam mais verdadeiro ou ansioso?
- Ao seguir essas vozes você se mais livre, ou mais confuso?
- Te tornam mais acolhedor com o outro, ou centrado em tuas próprias ideias.
Não é o discurso que precisa ser avaliado, mas as consequências que ele produz na tua vida.
A voz de Cristo não é superficial, pois ela chama pelo nome, conduz te questionando e não negocia a verdade para manter você confortável. Sem discernimento, a pessoa continua “seguindo uma voz”, mas já não é mais a de Cristo. Muitas vozes atuam em você provocando:
- Inflação do ego próprio ego;
- Imposição da tua a opinião, sem mesmo considerar o que Jesus ensinou;
- Uma espiritualidade de conveniência, que apenas justifique tuas necessidades.
A voz do Pastor tem uma marca inconfundível
- Chama pelo nome e não massifica;
- Conduz e não se impõe;
- Corrige e não engana.
A cruz convida a uma transformação verdadeira e não apenas ritual, pois Jesus conduz por um caminho onde:
- Por primeiro, a fé nasce na ferida (Tomé);
- Onde o amadurecimento no discernimento se dá pela identificação da voz do Bom Pastor;
E isso te coloca diante de duas perguntas inevitáveis:
- Você permitiu que Cristo toque, de fato, suas feridas?
- Você está aprendendo a reconhecer a voz que conduz sua vida?
Porque, no fim, não basta dizer que acredita, pois a fé verdadeira aparece em dois lugares:
- No modo como você atravessa a dor;
- E nas vozes que você escolhe seguir
E é isso que define tudo:
ou a ferida te fecha, ou te abre para a voz que conduz à vida.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com