XI Domingo do Tempo Comum | Ano A | 14/06/2026
Texto Bíblico: Mt 9,36 – 10,8
No Evangelho do domingo passado, contemplamos o chamado de Mateus e fomos confrontados com uma verdade fundamental: não é a perfeição que nos aproxima de Deus; é o encontro com Cristo que inicia a transformação da vida.
Jesus passou, chamou e Mateus se levantou. O Reino não começou no mérito. Começou no encontro.
Neste domingo, Mateus nos conduz um passo adiante. Depois de mostrar como Jesus acolhe e chama aqueles que muitos consideravam indignos, o evangelista nos permite entrar no próprio coração de Cristo.
O texto não começa com uma cura. Não começa com um milagre. Não começa com um ensinamento. Começa com um olhar.
Tudo começa quando Jesus vê. Mas o olhar de Jesus é diferente. Ele não vê apenas uma multidão. Não vê números. Não vê estatísticas. Não vê uma massa anônima. Ele vê pessoas. E nessas pessoas ele:
- Vê histórias;
- Vê feridas;
- Vê sofrimentos;
- Vê buscas silenciosas;
- Vê a solidão escondida atrás dos rostos.
Enquanto muitos enxergavam apenas uma multidão, Jesus enxergava cada pessoa. E é justamente aqui que o Evangelho revela um dos maiores perigos da vida humana e também da vida espiritual:
Muitas pessoas olhavam para aquela multidão. Os líderes religiosos a viam. Os governantes a viam. Os comerciantes a viam. Mas apenas Jesus percebe sua verdadeira condição.
A maior tragédia nem sempre é a falta de recursos. Muitas vezes é a falta de direção. É possível estar cercado de pessoas e continuar sozinho. É possível possuir informação e continuar sem sentido. É possível alcançar sucesso e continuar perdido. É possível estar ocupado o tempo todo e não saber para onde a vida está indo.
Por isso Jesus não diz que a multidão está apenas doente, pobre ou faminta. Ele diz algo muito mais profundo:
O problema não era apenas o sofrimento. Era a ausência de alguém que conduzisse suas vidas para um horizonte de sentido. Essa realidade continua atual. Talvez mais atual do que nunca. Vivemos numa sociedade repleta de conexões, mas marcada pela solidão. Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, ao mesmo tempo, tantas pessoas se perguntam por que vivem. Nunca tivemos tantas possibilidades. E, ao mesmo tempo, tantas pessoas se sentem perdidas. O coração humano continua procurando alguém que lhe mostre um caminho.
O Evangelho utiliza uma palavra muito forte para descrever a reação de Jesus diante daquela realidade. Ele sente compaixão. Não se trata de pena. Não se trata de dó. Não se trata de um sentimento passageiro.
A compaixão, no sentido bíblico, é um amor que se deixa afetar pela realidade do outro. É a capacidade de permitir que a dor do próximo atravesse o próprio coração. Por isso a compaixão de Jesus nunca permanece apenas como sentimento. Ela sempre gera movimento. Ela sempre produz ação.
Depois de contemplar a realidade do povo, Jesus afirma:
E aqui encontramos uma verdade fundamental para toda a vida cristã. Normalmente pensamos que a missão nasce de estratégias, planejamentos ou necessidades institucionais. No Evangelho acontece o contrário. A missão nasce da compaixão:
- Primeiro Jesus vê.
- Depois Jesus se compadece.
- Depois Jesus chama.
A missão não começa no envio. Começa no olhar.
Talvez esta seja a pergunta que o Evangelho coloca diante de nós.
Quem são as multidões cansadas e abatidas de hoje?:
- São aqueles que vivem consumidos pela ansiedade.
- São aqueles que carregam o peso da solidão.
- São aqueles que perderam a esperança.
- São aqueles que vivem aprisionados em relacionamentos superficiais.
- São aqueles que já não encontram sentido para continuar lutando.
- São aqueles que tentam sustentar sozinhos o peso da própria existência.
Muitas vezes corremos o risco de enxergar apenas comportamentos. Enxergar apenas opiniões. Enxergar apenas números. Jesus nos convida a enxergar pessoas. E isso muda tudo.
Porque quando vemos apenas comportamentos, julgamos. Quando vemos pessoas, começamos a amar.
Existe uma diferença profunda entre trabalhar para Deus e participar da compaixão de Deus.
Trabalhar para Deus pode transformar-se em uma atividade. Participar da compaixão de Deus transforma-se em vocação.
Por isso, antes de dizer aos discípulos:
Jesus primeiro olha.
E antes de enviá-los, permite que enxerguem aquilo que Ele enxerga.
A missão cristã não nasce da necessidade da Igreja ocupar espaços. Nasce do coração de Cristo que continua olhando para o mundo e se compadecendo dele.
Toda pastoral, toda evangelização, toda ação missionária corre o risco de perder sua alma quando deixa de nascer da compaixão.
Creio que a grande questão deste Evangelho não seja:
Mas algo ainda mais profundo:
Porque toda evangelização autêntica começa quando a compaixão deixa de ser apenas um sentimento e se transforma numa forma de viver.
E talvez seja exatamente isso que o Sagrado Coração de Jesus continua tentando ensinar ao mundo: um coração capaz de ver o que os outros não veem, sentir o que os outros ignoram e amar onde muitos já desistiram de amar.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com