XII Domingo do Tempo Comum | Ano A
Texto Bíblico: Mt 10,26-33
Ao longo dos últimos domingos, o Evangelho de Mateus foi nos conduzindo por um caminho de amadurecimento espiritual. Primeiro vimos Jesus chamar Mateus, recordando-nos que não é a perfeição que nos aproxima de Deus, mas o encontro com Cristo que inicia a transformação da vida. Depois contemplamos o olhar compassivo de Jesus sobre as multidões cansadas e abatidas, revelando que a missão nasce da capacidade de enxergar as pessoas com os olhos do próprio Cristo. Agora, o Evangelho nos conduz a uma pergunta ainda mais profunda:
O que significa, de fato, confessar Cristo?
A resposta parece óbvia. Muitos diriam que confessar Cristo significa acreditar nele. Outros afirmariam que significa falar dele. Alguns pensariam imediatamente na participação na Igreja, na oração ou na profissão pública da fé. Mas Jesus vai muito além de tudo isso. No final do Evangelho, Ele afirma:
À primeira vista, essas palavras parecem referir-se apenas a uma profissão verbal de fé. Mas quando observamos o conjunto do Evangelho percebemos que Jesus está falando de algo muito mais profundo.
Porque é possível falar sobre Cristo sem verdadeiramente pertencer a Cristo. É possível conhecer suas palavras sem permitir que elas transformem a própria vida. É possível defender a religião e, ao mesmo tempo, permanecer distante do Evangelho.
Os próprios fariseus constituem um exemplo disso. Conheciam as Escrituras. Frequentavam o Templo. Falavam constantemente de Deus. Mas Jesus denuncia repetidamente a distância entre aquilo que proclamavam e aquilo que viviam.
O problema deles não era a falta de conhecimento religioso. Era a incoerência. Os lábios falavam de Deus, mas o coração permanecia fechado à sua ação.
Por isso confessar Cristo não significa apenas pronunciar seu nome. Significa tornar-se transparente à sua presença. Significa permitir que a própria vida revele aquilo que os lábios professam.
Existe uma diferença entre opinião e convicção. Opiniões são facilmente modificadas pelas circunstâncias. Convicções permanecem mesmo quando custam alguma coisa. É justamente por isso que Jesus relaciona a profissão de fé com a coragem.
A verdadeira profissão de fé acontece quando:
- as escolhas confirmam aquilo que os lábios proclamam;
- a verdade exige um preço e ainda assim a escolhemos;
- o perdão parece impossível e, mesmo assim, decidimos perdoar;
- a honestidade gera prejuízo, mas ainda assim permanecemos honestos;
- o amor exige sacrifício e, mesmo assim, escolhemos amar.
Em outras palavras, a fé cristã não se manifesta principalmente nas palavras. Ela se manifesta nas decisões.
Por isso existem pessoas que falam frequentemente sobre Deus, mas revelam pouco de Deus.
E existem outras que talvez falem menos, mas cuja maneira de acolher, servir, escutar, perdoar e amar já anuncia o Evangelho antes mesmo de qualquer discurso, pois a vida torna-se testemunho, a existência torna-se pregação e o comportamento torna-se anúncio.
Talvez por isso a pergunta mais importante não seja:
Mas:
Porque toda fé que permanece apenas no discurso corre o risco de transformar-se numa ideologia religiosa.
A fé cristã é diferente. Ela precisa ganhar carne. Precisa tornar-se visível.
Precisa aparecer na forma como tratamos as pessoas, administramos o tempo, utilizamos os bens, exercemos a autoridade e construímos nossos relacionamentos.
Jesus deixa um grande ensinamento: Todo ser humano serve aquilo que mais teme perder.
- Quem teme perder o dinheiro passa a servir o dinheiro.
- Quem teme perder a aprovação dos outros passa a viver para agradar os outros.
- Quem teme perder o poder torna-se escravo do poder.
- Quem teme perder a própria imagem transforma-se em prisioneiro dela.
Por isso, muitas vezes, aquilo que você chama de liberdade não passa de submissão aos teus medos. Quando o medo revela onde está o teu tesouro, ele está revelando aquilo que ocupa o centro do teu coração, isto é, revela quem realmente governa tuas escolhas.
É justamente aqui que a fé cristã se torna revolucionária. Porque Jesus não promete uma vida sem medos. Ele não promete uma vida sem dificuldades. Ele não promete uma vida sem sofrimento. Ele próprio enfrentou a angústia do Getsêmani.
Os apóstolos experimentaram perseguições. Os santos enfrentaram provações. A diferença não está na ausência do medo. A diferença está em quem possui a última palavra.
O discípulo não é alguém que nunca sente medo. O discípulo é alguém que decidiu confiar. Decidiu acreditar que Deus é maior do que suas inseguranças. Maior do que suas perdas. Maior do que suas incertezas. Maior do que seus fracassos.
A fé não elimina a fragilidade humana. Mas impede que ela determine o rumo da existência. Por isso a dois domingos meditamos que Jesus não estava a procura de pessoas perfeitas, mas de pessoas que tivessem atitude.
É essa confiança que permite aos discípulos continuar caminhando. É essa confiança que sustenta os mártires. É essa confiança que transforma pessoas comuns em testemunhas extraordinárias do Evangelho.
Talvez a grande pergunta deste Evangelho não seja: “Eu acredito em Cristo?” Tenho certeza que a grande maioria vai responder imediatamente que sim.
A pergunta mais profunda talvez seja:
Porque, no final das contas, não serão apenas as palavras que revelarão em quem você acredita, mas serão:
- tuas escolhas;
- tuas prioridades;
- e a maneira como você vive.
Confessar Cristo é mais do que falar sobre Cristo.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com