XXVIII Domingo do Tempo Comum | Ano A | 11/10/2026

Tema: O que o encontro com Jesus está fazendo com você?”
Texto Bíblico: Mateus 22,1-14

Caro leitor! Há alguns domingos, Jesus vem nos conduzindo por um caminho exigente de conversão. E cada Evangelho parece acrescentar uma pergunta à anterior.

Há alguns domingos, Jesus vem nos conduzindo por um caminho exigente de conversão. E cada Evangelho parece acrescentar uma pergunta à anterior.

Tudo começou em Cesareia de Filipe: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,13-20). Era necessário descobrir quem é Jesus. Mas não bastava possuir a resposta correta. Logo depois, Pedro, que acabara de reconhecer Jesus como o Cristo, tentou afastá-lo da cruz. Então ouvimos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo” (Mt 16,21-27). A questão deixou de ser apenas quem é Jesus e tornou-se: o que precisa mudar em mim se realmente desejo segui-lo?

Depois, Jesus nos conduziu para dentro das nossas relações. “Se teu irmão pecar contra ti…” (Mt 18,15-20). Aprendemos que a verdade não nos autoriza a destruir ninguém e que ganhar uma discussão e perder um irmão continua sendo perder. Pedro então perguntou: “Quantas vezes devo perdoar?” (Mt 18,21-35). Descobrimos que a misericórdia recebida precisa atravessar nossa vida e alcançar aqueles que nos devem alguma coisa. Então chegamos à vinha.

Na parábola dos trabalhadores (Mt 20,1-16), Jesus nos confrontou com a bondade de Deus para com aqueles que chegaram depois. A inveja espiritual começa quando interpretamos a bondade de Deus com o outro como se fosse uma injustiça contra nós.

Depois, diante dos dois filhos (Mt 21,28-32), descobrimos que não basta dizer: “Sim, Senhor”. É preciso entrar na vinha. Há um “não” que pode transformar-se em conversão e há um “sim” que pode permanecer apenas aparência.

No XXVII domingo, os vinhateiros quiseram apropriar-se da vinha e eliminar o Filho do proprietário (Mt 21,33-43). A pergunta tornou-se ainda mais séria: o que estamos fazendo com Jesus? Porque podemos cuidar das coisas de Deus e, lentamente, começar a viver como se elas fossem nossas. Podemos permanecer dentro da vinha e esquecer quem é o seu verdadeiro Dono.

Agora Jesus muda a imagem. Saímos da vinha e entramos numa festa. Depois de tantos domingos falando sobre trabalhar, produzir frutos, responder ao chamado e administrar aquilo que recebemos, Jesus parece querer nos recordar: não fomos chamados apenas para trabalhar para Deus. Fomos chamados para viver com Ele. Pois, o Reino também é mesa, encontro e festa.

Então Jesus começa:

“O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho.”

Observe quem toma a iniciativa. É o rei. Ele prepara o banquete. Organiza a festa. Prepara a mesa. Envia os empregados. Procura os convidados. E manda dizer: “Tudo está pronto. Vinde para a festa!”

Muitos constroem uma imagem religiosa segundo a qual passam a vida tentando chegar até Deus. Mas o Evangelho começa na direção contrária. Antes de você procurar Deus, Deus já saiu à tua procura.

Não é você que prepara uma mesa e tenta convencer Deus a sentar-se contigo. É Deus quem prepara a mesa e quer te convencer a sentar-se com Ele. Isso muda profundamente a compreensão da fé.

O cristianismo não começa com uma conquista humana. Começa com um convite. Antes do teu esforço existe uma graça. Antes da tua resposta existe uma Palavra. Antes da tua procura existe um Deus que te procura. A primeira palavra do Evangelho não é: “Você merece?” É: “Venha.”

O estranho é que nem sempre você quer ir ao encontro de Deus. Muitas vezes, prefere criar armadilhas para que Deus venha encontrá-lo exatamente no lugar de onde você se recusa a sair.

Voltemos ao texto. Jesus diz: “Mas estes não quiseram vir.” Essa frase deveria causar estranhamento.

O rei não está convocando aquelas pessoas para uma guerra. Não está chamando para pagar impostos. Não está exigindo trabalho. Está oferecendo uma festa. E eles não querem. Por que muitos recusam a aceitar que Deus apenas os chama para estar com Ele?

Então o rei envia outros empregados: “Já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!” É quase como se o rei insistisse: “Vocês não compreenderam. Eu não estou pedindo alguma coisa. Estou oferecendo.”

Mesmo assim, não vão. Alguns fazem algo ainda mais impressionante: “não deram a menor atenção”. Um volta para o campo, outro para seus negócios etc. Em muito esse comportamento se assemelha a relação com Deus ainda hoje. Pois, poucas pessoas precisam dizer explicitamente: “Eu rejeito Deus.” Existe uma maneira muito mais silenciosa de viver longe dele: simplesmente não ter tempo para Ele.

Você não precisa dizer ou fazer coisas heréticas para negar Deus; basta adiá-Lo, dizendo: “Depois eu rezo”, “quando as coisas se acalmarem, eu volto”, “quando tiver mais tempo, cuido da minha vida espiritual”, “depois procuro aquela pessoa”, “depois reorganizo minha vida” ou simplesmente “depois penso nisso”. E assim vai pronunciando uma palavra perigosa: depois.

Há pessoas que não perderam Deus porque escolheram algo contra Ele. Perderam-no porque sempre havia alguma coisa antes dele.

Depois de tanta vinha, Jesus te convida para a mesa. Essa é uma bela mudança de perspectiva. Jesus diz: “Vinde para a festa!” Mas os primeiros convidados recusaram. Então o rei ordena: “Ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes.” A festa não é cancelada. O rei amplia o convite. Isso é extraordinário.

Quando alguns fecham a porta para Deus, Deus abre outras portas para alcançar pessoas que jamais imaginaram estar na lista. O evangelista Mateus faz questão de dizer:

“reuniram todos os que encontraram, maus e bons”.

Não apenas os bons. Não apenas os preparados. Não apenas aqueles com uma história impecável. Não apenas aqueles que conheciam as regras. Mas todos os que encontraram.

A sala começa a encher-se de pessoas improváveis. Aqui reaparece o Deus dos últimos domingos. É o mesmo proprietário que saiu às cinco da tarde para procurar trabalhadores. É o mesmo Pai diante de quem publicanos e prostitutas começaram a mudar de vida. É o mesmo Senhor que transforma a pedra rejeitada em pedra angular. Deus parece possuir uma predileção pelas pessoas que nossas listas deixariam de fora.

A mesa torna-se ainda maior. O rei manda buscar pessoas nas encruzilhadas, pois: “Ainda há lugares vazios. Vá buscar mais gente.”

A comunidade cristã precisa parar de perguntar apenas: “Quantas pessoas já estão aqui?” e começar a perguntar: “Quem ainda não encontrou seu lugar à mesa?” Quem ainda está nas encruzilhadas?

A missão da Igreja não é apenas cuidar dos lugares ocupados. É continuar procurando quem ainda acredita que não existe lugar para ele.

Todos são convidados, maus e bons entram. A sala fica cheia. Mas Jesus não termina aí. No desfecho da parábola aparece um homem sem a veste.

O rei entra e encontra um homem sem o traje de festa. Pergunta: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” E o homem permanece em silêncio.

Essa parte da parábola pode causar estranhamento e indignação, pois afinal, aquelas pessoas foram encontradas nas estradas. Como exigir delas roupa adequada?

Se você reduzir a veste a uma questão de etiqueta, a parábola realmente se torna difícil. Mas Jesus não está dando uma aula de etiqueta, está falando do Reino. E aqui a veste aponta para algo mais profundo: a dimensão simbólica.

A veste representa aquilo que começa a aparecer em tua vida depois que você aceita o convite.

Você entrou, mas o que aconteceu depois? Tornou-se mais misericordioso? Mais verdadeiro? Mais generoso? Mais capaz de reconhecer os próprios erros? Mais capaz de perdoar? Menos autocentrado? Mais atento aos pequenos? Mais humano?

A afirmação “Eu frequento a Igreja”, precisa dar espaço para uma pergunta: “O que minha relação com Cristo está produzindo em mim?”

Você pode estar dentro da sala e continuar insensível à festa. Ao teu redor todos estão felizes, mas você é indiferente a alegria dos outros. Pode receber a Eucaristia e continuar alimentando ódios. Pode ouvir o Evangelho todos os domingos e continuar tratando pessoas com crueldade. Pode conhecer a doutrina e utilizar a verdade para humilhar. Pode defender a família e não saber pedir perdão dentro da própria casa. Pode falar sobre caridade e permanecer indiferente diante do sofrimento concreto. E pior, pode defender Cristo e não possuir os sentimentos de Cristo.

A proximidade do sagrado não garante, por si mesma, um coração transformado.

Estar dentro não significa ter permitido que Cristo seja parte da tua vida. Esse é o ponto desconfortável da parábola.

O homem sem a veste estava dentro da sala. Assim como, no domingo anterior, os vinhateiros estavam dentro da vinha.

Jesus insisti no mesmo alerta. O perigo não está apenas fora. Pode estar dentro. Dentro da Igreja. Dentro de um radicalismo de fé.

Por isso não basta perguntar: “Eu deixei Jesus entrar na minha vida?”. É necessário se interrogar: “Em quais partes da minha vida eu ainda não permito que Ele entre?”

Há pessoas que deram a Deus uma chave da casa, mas conservam algumas portas fechadas onde Ele continua sem poder entrar.

“Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” E Jesus da ênfase: “Mas o homem nada respondeu.” Essa informação é crucial.

Acabaram as justificativas, e isso possui uma dimensão psicológica importante.

Ele não responde, a Jesus porque a pergunta não é sobre Jesus, mas sobre ele.

Quando olhamos para os últimos domingos, percebemos a profundidade desse caminho.

  • Primeiro Jesus perguntou: “Quem dizeis que eu sou?”
  • Depois: “Você está disposto a renunciar a si mesmo para me seguir?”
  • Depois: “O que você faz quando seu irmão erra?”
  • Depois: “Quantas vezes está disposto a perdoar?”
  • Depois: “Você suporta que eu seja bom também com quem chegou depois?”
  • Depois: “Sua vida corresponde ao ‘sim’ que você pronuncia?”
  • Depois: “Que frutos você está produzindo com aquilo que lhe confiei?”
  • E agora: “O que o encontro com Jesus está fazendo com você?”

Muitos preferem ficar dizendo quem é Jesus, mas o evangelista Mateus guia para uma questão mais ampla.

Jesus agora devolve a pergunta: “Você já disse quem Eu sou. Agora me mostre quem você está se tornando depois que me encontrou.” Essa é uma pergunta muito mais difícil.

A veste não é aquilo que usamos para sermos convidados. A veste é aquilo que começa a aparecer quando percebemos a grandeza do convite que recebemos.

Depois de tantos encontros com Cristo, talvez já não seja suficiente perguntar se você está dentro da sala. Mas olhar para a própria vida e perguntar: Que diferença fez ter entrado?

Existe uma tragédia maior do que permanecer do lado de fora. Passar a vida inteira perto de Deus e continuar vivendo como se nunca o tivesse encontrado.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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