Ascensão | Ano A | 16/05/2026

Tema:
A vida colocou os discípulos diante de Jesus e Jesus os colocou diante da vida

Existe um detalhe profundamente importante em todo o caminho dos discípulos e talvez seja exatamente aí que muitas vezes não compreendemos o Evangelho.

No início, foi a própria vida que colocou os discípulos diante de Jesus.

Eles não chegaram até Cristo porque tinham todas as respostas. Não se aproximaram porque estavam plenamente organizados interiormente. Não encontraram Jesus porque eram espiritualmente fortes. Foi justamente o contrário.

A vida os empurrou até Ele. Foram:

  • as crises;
  • os medos;
  • as dúvidas;
  • as frustrações;
  • as perdas;
  • as perguntas interiores;
  • o vazio;
  • o cansaço da própria existência.

A dor abriu perguntas. A fragilidade rompeu certezas. A insuficiência humana criou espaço para o encontro. E isso continua acontecendo até hoje.

Muitas vezes, o ser humano só começa a procurar verdadeiramente a Deus quando percebe que não consegue mais sustentar sozinho o peso da própria vida.

Enquanto tudo parece sob controle, a ilusão de autossuficiência permanece. Mas quando as estruturas interiores começam a ruir, surgem perguntas mais profundas:

  • Quem sou eu?
  • O que sustenta minha existência?
  • O que realmente permanece?
  • Há algo maior do que apenas sobreviver?

Foi exatamente isso que aconteceu com os discípulos.

  • Pedro conheceu sua fragilidade;
  • Tomé atravessou a dúvida;
  • Os discípulos de Emaús experimentaram a frustração;
  • Maria Madalena enfrentou a dor da perda.

Cada um chegou até Jesus carregando feridas, perguntas e limites. E talvez aqui exista algo importante para compreender:

Deus frequentemente entra na vida humana pelas “fissuras”.

Não porque deseje a dor, mas porque muitas vezes é somente quando nossas falsas seguranças quebram que nos tornamos capazes de escutar.

Mas existe um ponto decisivo no Evangelho que nem sempre é compreendido. O encontro com Jesus não tinha como finalidade retirar os discípulos da vida.

Cristo não os chama para fugir da existência. Não os convida a abandonar a realidade humana. Não os transforma em pessoas alienadas do mundo.

Pelo contrário. Depois do encontro com Jesus acontece algo profundamente transformador: Cristo devolve os discípulos à vida.

E talvez aqui esteja um dos maiores equívocos da espiritualidade contemporânea. Muitas pessoas procuram Deus:

  • para fugir da realidade;
  • para anestesiar angústias;
  • para escapar dos conflitos humanos;
  • para encontrar apenas conforto emocional;
  • para viver protegidas das dores da existência.

Mas o Evangelho não sustenta esse tipo de espiritualidade. Jesus não forma fugitivos da vida, pois se assim fosse eles estariam transformando Deus em fuga. E Deus não é fuga, Deus é sustento na jornada. Por isso Jesus forma discípulos capazes de:

  • amar com mais verdade;
  • enfrentar a realidade com mais consciência;
  • servir com mais responsabilidade;
  • voltar ao mundo com outro olhar.

A vida colocou os discípulos diante de Jesus. E Jesus colocou os discípulos diante da vida.

Jesus nunca afastou os discípulos da realidade, e sabemos disso pelo modo como Jesus conduz os discípulos. Pois Ele:

  • não os afasta das pessoas;
  • não os separa do sofrimento humano;
  • não cria uma espiritualidade isolada da realidade.

Depois de cada encontro profundo, Cristo sempre os devolve ao caminho:

  • para servir;
  • anunciar;
  • curar;
  • reconciliar;
  • testemunhar.

Até mesmo os grandes momentos espirituais terminam assim:

  • Em Emaús, os discípulos reconhecem Jesus e imediatamente voltam para Jerusalém;
  • Depois da Ressurreição, os discípulos reencontram Cristo e logo são enviados;
  • Na Ascensão, os discípulos olham para o céu… mas não podem permanecer ali.

Os anjos perguntam: “Por que ficais aqui olhando para o céu?” Essa pergunta continua extremamente atual. Porque existe uma religiosidade que deseja:

  • contemplação sem tocar a realidade humana;
  • emoção sem compromisso;
  • experiência espiritual sem responsabilidade concreta.

A Ascensão rompe isso. Jesus não sobe para afastar os discípulos do mundo. Ele sobe para enviá-los novamente ao mundo. “Ide e fazei discípulos”

A última palavra de Jesus antes da Ascensão é: “Ide.”

A última palavra de Jesus antes da Ascensão não é:

  • “escondam-se”;
  • “protejam-se”;
  • “fujam do mundo”.

A última palavra é: “Ide.”

Isso muda completamente a compreensão da fé cristã. O discípulo verdadeiro não permanece fechado em experiências espirituais individuais. Ele volta à vida:

  • mais consciente;
  • mais verdadeiro;
  • mais humano;
  • mais disponível para amar.

Porque o encontro com Cristo não diminui a humanidade.

Ele a aprofunda.

E aqui quero chamar a atenção a uma verdade que preferimos ignorar. O Evangelho não produz alienação, ele desperta consciência.

Nesse ponto é importante fazer um discernimento sério. Existe uma espiritualidade doentia que utiliza Deus como mecanismo de fuga:

  • fuga das responsabilidades;
  • fuga dos conflitos;
  • fuga da própria história;
  • fuga da maturidade humana.

Mas isso não é Evangelho. Jesus nunca afastou ninguém da responsabilidade pela própria vida.

Pelo contrário: quanto mais alguém amadurece espiritualmente, mais se torna capaz de:

  • assumir escolhas;
  • enfrentar a verdade;
  • reconciliar-se com a própria história;
  • amar concretamente;
  • sustentar a esperança em meio à realidade.

A fé cristã não destrói a humanidade. Ela reorganiza a humanidade a partir de Deus, pois Jesus devolve sentido à existência.

Talvez seja exatamente isso que os discípulos começam a experimentar depois da Ressurreição.

A vida continua difícil. O mundo continua conflituoso. As perseguições virão. O sofrimento não desaparece.

Mas agora existe um centro. Agora existe uma presença. Agora existe sentido. E isso muda completamente a maneira de viver.

Jesus não prometeu ausência de cruz. Prometeu presença no meio dela.

E aqui aparece um ponto decisivo.

A maturidade espiritual não acontece quando a pessoa foge da realidade. Ela acontece quando:

  • consegue permanecer em Deus sem abandonar a vida;
  • consegue amar sem fugir da dor;
  • consegue manter esperança sem negar os conflitos humanos;
  • consegue continuar servindo mesmo em meio ao cansaço.

Isso exige uma fé muito mais profunda do que apenas emoção religiosa. Porque existem momentos em que:

  • a oração parece seca;
  • o coração se sente cansado;
  • o silêncio de Deus pesa;
  • a emoção desaparece.

E exatamente aí muitos desistem. Mas a fé madura descobre algo essencial: a ausência de emoção não significa ausência de Deus.

Cristo continua presente:

  • mesmo quando não é percebido;
  • mesmo quando não é sentido;
  • mesmo quando o coração atravessa silêncio.

E talvez seja exatamente aí que o amor amadurece. Porque permanecer quando tudo consola é fácil. Difícil é permanecer quando nada emociona. Mas é justamente nesse ponto que a fé deixa de ser dependência emocional e se torna fidelidade.

Depois da Ascensão, os discípulos já não poderão depender apenas da presença visível de Jesus.

Precisarão:

  • confiar sem ver;
  • amar sem controlar;
  • permanecer mesmo no silêncio;
  • testemunhar no meio do mundo.

Amadurecidos voltam à vida de outro modo E talvez seja exatamente isso que o Evangelho continue pedindo da Igreja hoje.

Não uma comunidade que foge da história. Mas uma comunidade capaz de entrar nela com mais verdade, mais consciência e mais amor.

Porque Jesus não veio para retirar o ser humano da vida. Veio para ensinar o ser humano a viver de modo novo.

Concluo recordando, a vida colocou os discípulos diante de Jesus. As crises os aproximaram. As feridas abriram perguntas.

A fragilidade os tornou capazes de escutar.

Mas depois do encontro com Cristo aconteceu algo ainda maior: Jesus os colocou novamente diante da vida.

Agora, porém, já não como homens perdidos, mas como testemunhas. E talvez aqui esteja a pergunta decisiva para cada um de nós:

Você está usando Deus para fugir da vida ou permitindo que Deus ensine você a vivê-la de forma mais verdadeira?

Porque o Evangelho não forma pessoas alienadas da própria realidade.

Forma discípulos capazes de permanecer em Deus sem abandonar o mundo.

Os textos de Mateus 28,16-20 e Atos dos Apóstolos 1,1-11 revelam algo muito verdadeiro e profundo: Ascensão não é abandono. É o chamado para você assumir seu lugar na vida.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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