Ascensão | Ano A | 17/05/2026
Textos Bíblicos: Mt. 28,16-20 | At. 1,1-11
A festa da Ascensão De Jesus muitas vezes, é reduzida à ideia de Jesus “indo embora para o céu”, como se o Evangelho narrasse apenas uma despedida. Mas os textos de Mateus 28,16-20 e Atos dos Apóstolos 1,1-11 revelam algo muito mais profundo: Ascensão não é ausência. É transformação da presença.
Até o momento da ascensão os discípulos se relacionavam com Jesus de maneira visível:
- caminhavam com Ele;
- ouviam diretamente sua voz;
- observavam seus gestos;
- buscavam segurança na sua presença concreta.
Mas chega um momento em que isso precisa amadurecer. Porque a fé cristã não pode permanecer eternamente dependente do visível.
O relato dos Atos dos Apóstolos descreve Jesus sendo elevado diante dos discípulos. E a reação deles é profundamente humana: permanecem olhando para o céu. É uma cena carregada de significado.
Eles ainda tentam segurar a antiga forma de presença. Ainda querem manter Jesus diante dos olhos, acessível, tangível, imediatamente perceptível. No fundo, ainda desejam um Cristo que possa ser visto, tocado e controlado. E então surge a pergunta dos anjos: “Homens da Galileia, por que ficais aqui parados olhando para o céu?”
Essa pergunta não é apenas dirigida aos discípulos. Ela atravessa o tempo e chega até os dias de hoje, pois muitos ainda buscam uma espiritualidade que permanece olhando para o céu, mas evita descer à realidade concreta da vida. Uma fé frágil:
- contemplativa e sem compromisso;
- emocional e sem transformação;
- religiosa e sem missão;
- centrada em consolo, mas não em conversão.
Mas a Ascensão rompe essa lógica. Jesus não sobe para afastar os discípulos do mundo. Ele sobe para enviá-los de volta ao mundo.
Aqui aparece um dos pontos mais importantes do Tempo Pascal. Durante muito tempo, os discípulos dependeram da presença física de Jesus. Quando sentiam medo, corriam até Ele. Quando não compreendiam alguma coisa, perguntavam diretamente. Quando a vida se desorganizava, buscavam segurança em sua proximidade visível. Agora isso muda. A Ascensão obriga os discípulos a amadurecerem espiritualmente. E a partir daquele momento, eles precisarão aprender:
- a confiar sem ver;
- a caminhar sem controle;
- a permanecer mesmo no silêncio;
- a reconhecer uma presença que já não é física, mas interior e espiritual.
E isso se conecta profundamente com todo o itinerário dos Evangelhos pascais. Em Emaús, os discípulos caminham ao lado de Jesus sem reconhecê-Lo. Com Tomé, aprendem que a fé não nasce apenas da evidência, mas da experiência de encontro. No Evangelho do Bom Pastor, aprendem a discernir a voz que conduz à vida. Em João 14, descobrem que a verdadeira morada é permanecer em Deus. Agora, na Ascensão, tudo converge: a fé precisa deixar de depender do visível para se tornar permanência interior.
O Evangelho de Mateus termina de forma aparentemente paradoxal. Jesus sobe ao Pai, mas afirma: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” Isso muda completamente a compreensão da Ascensão. Cristo não desaparece. Ele aprofunda sua presença. Antes, sua presença estava localizada:
- numa estrada;
- numa casa;
- numa montanha;
- num encontro específico.
Agora, sua presença alcança:
- a Igreja;
- a Palavra;
- a Eucaristia;
- a missão;
- o coração de cada um.
Ele deixa de estar apenas diante dos olhos para habitar dentro da vida.
Aqui o Evangelho toca uma das maiores fragilidades da espiritualidade contemporânea. Muitos acreditam que Deus está presente apenas quando conseguem senti-Lo. Quando existe entusiasmo, emoção, consolo e intensidade espiritual a pessoa acredita que Deus está próximo. Mas quando vêm o silêncio, a secura, o cansaço interior, a ausência de emoção ela conclui que Deus desapareceu.
O problema é que Jesus nunca prometeu uma vida espiritual baseada em sensações constantes. Ele prometeu presença. E presença é diferente de emoção. As emoções oscilam. A presença de Deus, não.
A Ascensão rompe definitivamente a dependência infantil do visível e do sensível. Os discípulos já não poderão viver apenas de sinais imediatos. Precisarão aprender uma fé mais profunda. Uma fé capaz de permanecer:
- mesmo quando não vê;
- mesmo quando não sente;
- mesmo quando o coração atravessa silêncio.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da maturidade espiritual. Hoje, muitos confundem ausência de emoção com ausência de Deus. Mas os grandes momentos de amadurecimento da fé acontecem justamente quando as consolações desaparecem. Há períodos em que:
- a oração parece seca;
- a Palavra já não emociona;
- o coração se sente cansado;
- Deus parece silencioso.
E exatamente aí muita gente abandona a caminhada. Não porque perdeu Deus, mas porque estava acostumada a sustentar a fé nas próprias sensações. Só que Deus é maior do que aquilo que sentimos sobre Ele. O Ressuscitado continua presente:
- mesmo quando não é percebido;
- mesmo quando não é sentido;
- mesmo quando a emoção desaparece.
E é justamente nesse ponto que o amor amadurece. Porque permanecer quando tudo é agradável é fácil. Difícil é continuar quando o coração atravessa noite, silêncio e secura. Mas é exatamente aí que a fé deixa de ser apenas emoção religiosa e se torna fidelidade.
A maturidade espiritual começa quando você aprende que Deus não está preso às suas experiências emocionais. Às vezes, Deus está agindo mais profundamente justamente no silêncio. Porque há momentos em que Ele consola, mas há outros em que Ele purifica, sustenta e aprofunda.
Até o momento da ascensão os discípulos acompanhavam Jesus, depois serão enviados por Ele. Por isso Mateus termina com uma ordem clara: “Ide e fazei discípulos.” Ou seja, ide aprofundar a fé no concreto da vida.
A Ascensão encerra o tempo da dependência passiva e inaugura o tempo da missão. Não é possível permanecer apenas contemplando o céu. Precisam voltar à realidade concreta da vida, da história e do mundo. Isso continua extremamente atual. Existe uma forma de religiosidade que deseja apenas:
- sentir;
- receber consolo;
- viver experiências espirituais intensas.
Mas o Ressuscitado envia. A verdadeira experiência de Deus nunca termina em fechamento individual. Ela sempre gera missão, testemunho e responsabilidade.
Jesus não está abandonando a humanidade. Ele está levando a humanidade para dentro da comunhão definitiva com o Pai. A humanidade ferida, limitada e mortal agora entra na vida divina. E isso muda completamente a existência humana. O céu deixa de ser apenas um lugar distante. Torna-se uma comunhão iniciada já agora. Portanto não se trata de desejar o céu, mas de construí-lo no agora. Por isso, o centro da Ascensão não é “Jesus foi embora”. O centro é: Cristo permanece de outro modo. Agora Ele quer ser encontrado:
- na missão;
- e na fidelidade silenciosa do coração.
Talvez aqui esteja a síntese espiritual da Ascensão. A fé amadurece quando se aprende a permanecer mesmo quando já não vê. Aprender:
- a amar sem garantias emocionais constantes;
- a confiar sem depender sempre de sinais;
- a caminhar sem controlar tudo;
- a sustentar a esperança mesmo no silêncio.
E esse é um dos maiores desafios espirituais do nosso tempo. Porque muitos ainda procuram apenas um Cristo:
- imediatamente perceptível;
- emocionalmente intenso;
- constantemente sensível.
Mas Apartir da ascensão Ele já não quer apenas estar diante dos olhos. Quer habitar dentro da vida. E é exatamente aí que nasce a fé madura: quando o coração continua permanecendo mesmo quando já não pode ver.
Sua fé depende da presença de Deus… ou apenas da sensação que você tem dela?
Se o silêncio chegasse hoje, você continuaria permanecendo?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com