Batismo do Senhor | Ano A | 11/01/2026

Tema: A identidade precede a missão
Texto Bíblico: Mateus 3,13–17

Somos constantemente avaliados pelo que produzimos, pelo que entregamos, pelo que conseguimos realizar. Nesse contexto, identidade e valor pessoal acabam sendo confundidos com eficiência, sucesso e reconhecimento. O evangelista Mateus, porém, propõe uma ruptura radical com essa lógica.

No relato do batismo de Jesus, encontramos uma das afirmações mais decisivas da fé cristã: a identidade precede a missão. Antes de qualquer milagre, antes da pregação, antes da cruz, Jesus escuta do Pai quem Ele é: “Este é meu Filho amado”. Essa expressão funda toda a ação posterior e redefine o sentido do agir humano diante de Deus.

Jesus vai ao Jordão para ser batizado por João. Não se trata de um gesto necessário do ponto de vista moral, pois Ele não tem pecados a confessar nem conversão a realizar. O batismo de Jesus é, antes de tudo, um gesto de solidariedade. Ele entra na água junto com o povo, assume a condição humana até o fundo, recusa qualquer privilégio que o colocasse acima da história real das pessoas.

Esse movimento inicial já revela algo essencial: a missão de Jesus não começa pela exaltação, mas pela descida. Ele não inaugura sua vida pública em um trono, mas em um rio; não está cercado de aplausos, se coloca entre os anônimos. O Reino que Ele anuncia nasce dessa lógica inversa, onde a grandeza passa pelo esvaziamento.

Diante da resistência de João Batista, Jesus responde: “Convém cumprirmos toda a justiça.” Em Mateus, justiça não significa simples observância de normas, mas fidelidade ao projeto de Deus. Cumprir a justiça é ocupar o lugar certo dentro da vontade do Pai, mesmo quando isso contraria expectativas religiosas, sociais ou pessoais.

Jesus não age para corresponder a um ideal externo. Ele age porque está profundamente alinhado com o querer do Pai. A obediência de Jesus não é submissa nem cega, mas fruto de uma relação. Essa fidelidade interior prepara o terreno para a revelação que virá em seguida.

“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.”

Essa afirmação é decisiva. Ela não acontece depois da missão, mas antes. Jesus ainda não curou ninguém, não anunciou o Reino, não enfrentou o deserto, não foi rejeitado nem crucificado. E, no entanto, o Pai já o chama de Filho amado.

Aqui o Evangelho desmonta definitivamente a lógica meritocrática aplicada à vida espiritual. Jesus não é Filho porque faz milagres. Ele faz a missão porque já é Filho. Com isso ensina que:

Não é o que fazemos que nos define, mas aquilo que somos que dá sentido ao que fazemos.

Essa palavra recebida no batismo não é um prêmio, mas um fundamento, pois dela brota toda a vida pública de Jesus.

Essa distinção é crucial para compreender não apenas a vida de Jesus, mas também a nossa. Quando a identidade não está enraizada, o fazer assume uma função que não lhe pertence, e o pior é que a vida passa a tentar sentido só se estivermos fazendo algo. Nessa dinâmica você pode começar a:

  • trabalhar para ser reconhecido;
  • servir para ser amado;
  • produzir para preencher vazios interiores.

Mesmo ações boas podem se tornar fontes de esgotamento, ansiedade e frustração quando carregam o peso de justificar a própria existência. O problema não está no agir, mas no lugar interior de onde ele nasce.

Jesus, ao contrário, age a partir de uma identidade recebida, não conquistada. Por isso sua ação é livre. Ele não precisa provar nada a ninguém. Sua autoridade não vem do desempenho, mas da intimidade com o Pai.

A palavra escutada no Jordão acompanha Jesus em todos os momentos decisivos. No deserto, quando é tentado a provar quem é, Ele resiste. Na rejeição, Ele permanece fiel. Na cruz, quando tudo parece desmentir aquela voz do céu, Jesus continua confiando.

Isso revela algo essencial: quando a identidade é sólida, a missão suporta até o fracasso aparente. A cruz não destrói o sentido da vida de Jesus porque sua identidade não depende do sucesso visível da missão.

Também em nossa vida, as mesmas ações podem ter sentidos radicalmente diferentes:

  • servir pode ser submissão ou liberdade;
  • silêncio pode ser medo ou maturidade;
  • trabalhar pode ser fuga ou vocação.

O que muda não é o gesto, mas a identidade que o sustenta.

No batismo cristão, somos inseridos nessa mesma lógica. Antes de qualquer compromisso pastoral, antes de qualquer serviço, antes de qualquer exigência moral, Deus nos chama pelo nome e nos diz, ainda que em silêncio: “Tu és meu filho amado. Tu és minha filha amada.”

A missão cristã não começa com um faça, mas com um seja. Seja filho. Seja filha. Depois, sim, vá. Anuncie. Sirva. Ame.

Quando isso se inverte, a fé se torna pesada. Quando isso é respeitado, a fé se torna fonte de liberdade.

O batismo do Senhor nos recorda uma verdade simples e libertadora: não precisamos provar quem somos, se realmente nos sentirmos seus filhos e filhas. Nossa identidade é dom, não conquista. A partir dela, tudo o que fazemos encontra sentido, medida e verdade.

Num mundo que cobra resultados, o Evangelho devolve o essencial. Antes da missão, há uma identidade. Antes do agir, há um amor recebido. E é somente a partir desse amor que a vida pode ter um verdadeiro significado.

Portanto:

De onde nasce o que você faz? Do amor que você já recebeu ou da necessidade de ser visto, reconhecido e aprovado?

Você serve porque se sente filho, filha de Deus, ou porque espera que o serviço finalmente lhe dê um lugar?

Você trabalha para expressar quem é, ou para preencher um vazio que nunca se satisfaz?

Aquilo que você faz é resposta a um amor recebido ou tentativa silenciosa de conquistar um amor que você teme não ter?

Cuidado, pois quando o “fazer” vira busca de identidade, ele escraviza, mas quando nasce da filiação, ele liberta.

Quando a vida vira apenas tarefa, esquecemos a pergunta essencial: quem sou eu para Deus quando não faço nada?

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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