Epifania | Ano A | 04/01/2026
Texto Bíblico: Mateus 2,1–12
A cena da Epifania (Manifestação) nos apresenta um dos contrastes mais profundos do Evangelho segundo Mateus:
- De um lado, Herodes, o rei que teme perder o poder;
- D’outro, os magos, estrangeiros que se colocam a caminho dispostos a perder o controle para adorar.
Aqui está o coração do texto:
- o medo fecha, a busca amplia;
- o medo paralisa, a busca move;
- o medo constrói muros, a busca abre estradas.
Herodes permanece imóvel, cercado de estratégias, desconfianças e jogos de poder. Tudo em sua postura revela insegurança, pois:
- quem vive para preservar o próprio domínio vê ameaça em qualquer situação.
Já os magos aceitam a instabilidade do caminho, porque intuem uma verdade essencial da fé:
- só encontra quem se dispõe a partir.
Os magos não têm garantias, não possuem mapas completos, mas seguem uma luz, e isso é suficiente para não desistir.
A tradição fala em três magos, vindos de terras e culturas diferentes. Três presentes, três histórias, três modos distintos de viver e interpretar o mundo, mas todos convergindo para o mesmo ponto: o Deus Menino.
A Epifania recorda que Deus não pertence a um único território espiritual. Ele se deixa encontrar por quem o busca com sinceridade, ainda que venha de longe, ainda que caminhe por trilhas inesperadas.
O evangelista Mateus é cuidadoso ao mostrar que a estrela não carrega os magos, mas os orienta. Não decide por eles, não faz o caminho em seu lugar, apenas aponta a direção. Esta imagem é decisiva para compreender a fé cristã.
Muitas vezes gostaríamos que a fé nos poupasse do esforço, que resolvesse tudo imediatamente, que nos carregasse nos momentos difíceis, ou até que outros caminhassem por nós. No entanto, o que a fé oferece não é um atalho mágico, mas sentido suficiente para dar o próximo passo, pois:
- não elimina a noite, com suas dificuldades e incertezas;
- não resolve tudo de uma vez, nem no nosso tempo.
Ela sustenta a caminhada quando o caminho ainda não está claro.
A estrela reaparece num momento muito significativo do relato:
- quando os magos saem do palácio. Enquanto permanecem em Jerusalém, centro do poder político e religioso, a luz se apaga.
O poder confunde, porque promete segurança absoluta e controle total. Já a simplicidade esclarece, porque devolve à vida sua verdade essencial: protagonismo.
Quando os magos deixam Jerusalém e seguem para Belém, o lugar pequeno, fora dos holofotes, a estrela volta a brilhar. Com isso Mateus ensina:
- Deus não se manifesta onde há ostentação, mas onde há acolhida;
- não se manifesta onde tudo é controle, mas onde existe abertura.
Pra ter fé é preciso aprender o básico: a lógica divina não coincide com a lógica do poder humano.
Depois do encontro com o Menino, nada permanece igual. A Epifania não termina na adoração, mas na decisão.
O texto afirma que os magos retornaram por outro caminho. Não se trata apenas de uma precaução geográfica, mas de uma escolha profundamente existencial.
Quem encontra Cristo de verdade não pode repetir os mesmos trajetos. O encontro com Deus desinstala, desloca, reorienta. Ele nos impede de voltar ao ponto inicial como se nada tivesse acontecido.
Quem adora de verdade não se submete mais a um Herodes qualquer, e sejamos sinceros, há muitos que tentam ocupar o lugar do Menino Deus com: ideologias, poderes, medos, vaidades, etc.
A adoração verdadeira liberta porque devolve a Deus o centro que Lhe pertence.
E quem se ajoelha diante do Menino aprende algo essencial: a fé não escraviza, a fé liberta.
Ela não aprisiona em tradicionalismos rígidos e frios, mas abre caminhos novos de humanidade, de responsabilidade e de compromisso com a vida.
A verdadeira Epifania acontece quando a fé deixa de ser apenas ideia, discurso ou tradicionalismo estéril, e se transforma em decisão de caminho.
Fé que não move, que não transforma, que não reorienta escolhas, corre o risco de se tornar apenas ornamento religioso.
A vida, em seu processo, é sempre evolução. Quem permanece paralisado como Herodes nunca encontra paz, porque precisa constantemente criar problemas e ameaças para justificar seus próprios medos, pois ainda crê que é mais fácil dizer que o outro está errado, do que assumir a própria responsabilidade da vida. Esse fechamento interior gera inquietação permanente, enquanto a abertura confiante gera liberdade.
Encontrar Cristo de verdade não muda apenas o destino final da existência, mas reorienta todo o percurso da vida. A estrela continua a brilhar, não para te carregar, mas para lembrar que cada um tem que dar o próprio passo e se responsabilizar pela sua jornada.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com