I Domingo da Quaresma | Ano A | 22/02/2026
Texto Bíblico: Mateus 4,1–11
O deserto não é apenas lugar de privação, mas de revelação de identidade. O povo de Israel foi provado no deserto e falhou. Jesus é provado no deserto e permanece fiel.
O relato das tentações não é apenas uma narrativa edificante. É uma revelação profunda sobre identidade. Mateus organiza o episódio em três tentações dentro do tempo simbólico de quarenta dias e quarenta noites, recordando os quarenta anos de Israel no deserto.
Jesus revive essa história. Ele não é apenas um indivíduo sendo testado; é o Filho fiel que assume e redime a experiência daquele povo.
Não sou o que faço.
Não sou o que querem que eu seja.
Essas afirmações não são slogans motivacionais. Possuem força cristológica. No deserto não está em jogo desempenho ou autoafirmação, mas filiação.
A lógica motivacional diz: “prove quem você é”. A lógica do Evangelho revela: “permaneça em quem você é”.
1ª Tentação: O pão
“Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.”
Não sou o que tenho.
A fome é real. O pão é legítimo. O problema não está na necessidade, mas na proposta de reduzir identidade à satisfação imediata.
Hoje essa tentação assume forma existencial: acreditar que valor pessoal está vinculado ao que se possui. Casas, carros, estabilidade, nada disso é mau em si. O risco está quando o “ter” substitui o “ser”.
Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem.”
A primeira libertação do deserto é esta: minha identidade não depende do que possuo.
2ª Tentação: Os sinais
“Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo.”
Não sou o que faço.
Agora a proposta é provar publicamente a própria identidade. Transformar a fé em espetáculo. Produzir um sinal extraordinário que gere admiração.
Aqui está a tentação da performance. Fazer para provar. Produzir para existir. Trabalhar para ser amado.
O Filho não é amado porque faz milagres. Ele faz milagres porque é amado.
A segunda libertação é profunda: não sou meu desempenho.
3ª Tentação: O poder
“Tudo isso te darei, se prostrado me adorares.”
Não sou o que querem que eu seja.
A tentação atinge as expectativas externas. Poder, influência, reconhecimento. A proposta não é absurda, mas exige uma troca: abandonar a fidelidade ao Pai.
Jesus recusa. Ele não se deixa definir pela pressão coletiva, nem pelo aplauso, nem pela expectativa messiânica.
A terceira libertação é decisiva: minha identidade não é construída pelo que esperam de mim.
Não somos o que fazemos.
Não somos o que querem que sejamos.
Somos filhos.
No deserto, o ataque não é ao comportamento, mas à identidade. “Se és Filho de Deus…”
Jesus vence porque sabe quem é.
A Quaresma não é um período para construir nova identidade, mas para retornar à identidade recebida.
E talvez a conversão comece quando temos coragem de nos perguntar:
- Tenho buscado segurança no que possuo?
- Tenho tentado provar meu valor pelo que faço?
- Tenho moldado minha vida pelo que esperam de mim?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com