II Domingo da Quaresma | Ano A | 01/03/2026
Texto Bíblico: Mateus 17,1–9
No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, a Igreja nos conduz ao alto do monte da Transfiguração. E ali, no silêncio que envolve Pedro, Tiago e João, ouvimos uma das declarações mais solenes de todo o Novo Testamento:
Há apenas dois momentos nos Evangelhos em que o Pai fala explicitamente: no Batismo e na Transfiguração. No Batismo, proclama a identidade de Jesus como Filho amado. Na Transfiguração, essa identidade é reafirmada, mas algo é acrescentado: “Escutai-o.”
Deus não pede admiração, não pede defesa teológica, não pede aplausos. Deus pede escuta.
A Transfiguração não é espetáculo místico para impressionar discípulos. Ela acontece logo após o primeiro anúncio da paixão. Antes da cruz, o Pai reafirma quem é o Filho. A glória não elimina o sofrimento; ela o ilumina. O monte não substitui o caminho, mas o prepara.
Pedro reage como muitos de nós: “Senhor, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas.” Ele quer fixar o momento, preservar a experiência luminosa. Mas enquanto ele ainda falava, a nuvem o envolve e a voz do Pai o interrompe.
Escutar exige suspender a própria fala. Escutar é interromper a própria vontade. Escutar é aceitar que Deus nem sempre confirma nossos impulsos ideológicos e religiosos.
O Evangelho é movimento, não contemplação isolada. Experiências fortes com Deus não são dadas para nos retirar da realidade, mas para nos sustentar dentro dela.
O monte sem o vale gera ilusão. O vale sem o monte gera desespero. A pedagogia de Jesus une os dois.
Na tradição bíblica, escutar não significa apenas ouvir sons. Escutar é aderir. É permitir que a Palavra reorganize a existência.
Podemos admirar Jesus e continuar intactos. A admiração mantém distância. A escuta aproxima e compromete.
• Quem já decidiu o que Deus deveria dizer não escuta.
• Quem usa a fé para confirmar suas próprias convicções não escuta.
Escutar gera deslocamento. Desinstala. Tira da zona de conforto.
Admirar é seguro. Escutar é arriscado.
Porque a escuta verdadeira pode exigir mudança de rota, revisão de prioridades, reconciliação, perdão, renúncia e decisão concreta.
Entre o Batismo e a Cruz, Jesus vive apoiado na identidade proclamada pelo Pai. Ele não precisa de novas confirmações a cada dificuldade. Permanece fiel à Voz que já falou.
Talvez o que nos falte não seja uma nova revelação, mas fidelidade à revelação já recebida.
Ao descerem do monte, Jesus ordena silêncio até a ressurreição. Experiência sem maturidade vira propaganda. Revelação sem cruz vira triunfalismo.
Uma pessoa transfigurada não é a que brilha externamente. É a que escuta profundamente.
Se perde a escuta, perde a direção.
Se foge da cruz, perde a credibilidade.
A Quaresma é tempo de reaprender a escutar. Não para responder imediatamente, mas para compreender e aderir.
A Transfiguração nos recorda que a fé cristã não se sustenta na admiração distante, mas na adesão concreta.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com