II Domingo do Tempo Comum | Ano A | 18/01/2026
Texto Bíblico: João 1,29–34
Importante!!!
No 2º Domingo do Tempo Comum (Anos A, B e C), a Igreja proclama o Evangelho de João, e não o evangelista do ano litúrgico, no caso deste ano Mateus. O motivo para usar o evangelho segundo João Evangelista é intencional, uma vez que esse trecho ajuda a fazer a transição teológica entre o Batismo de Jesus e o início do seu ministério público, isto porque João Evangelista apresenta Jesus como o “Cordeiro de Deus”. A identidade de Jesus é revelada como Messias, não apenas como alguém batizado. João Evangelista não descreve o batismo em si. O foco está no testemunho posterior sobre quem é Jesus. Esse trecho do Evangelho “serve” melhor como uma ponte entre os tempos litúrgicos, pois liga o Tempo do Natal/Epifania ao Tempo Comum que estamos iniciando neste domingo.
João Evangelista, neste trecho, reafirma a manifestação de Jesus, a qual celebramos nos dois domingos anteriores com a Epifania (manifestação) e Batismo, antes da narrativa contínua de Mateus. E também introduz ao chamado dos primeiros discípulos, tema central de João 1. Portanto, a escolha do Evangelho, segundo João, para o segundo domingo do tempo comum do Ano A, no lugar do evangelho segundo Mateus, é intencional, planejada e teológica, pois nos ajuda a aprofundar o sentido da missão de Jesus antes da sequência dominical de Mateus. Esse adendo é muito importante para compreendermos bem a construção reflexiva dos próximos domingos.
Há textos bíblicos que não apenas transmitem uma mensagem, mas reorganizam o modo como perguntamos sobre a vida, a fé e Deus. João 1,29–34 pertence a essa categoria. Ele não apresenta um ensinamento moral, nem um conjunto de orientações práticas. O texto faz algo mais radical: desloca o eixo da existência cristã do fazer para o ser.
Em continuidade com o Evangelho da semana anterior, a narrativa joanina aprofunda um princípio decisivo da fé cristã: a identidade precede a missão. Antes de qualquer ação, antes de qualquer envio, antes de qualquer exigência, há uma identidade recebida. Ignorar essa ordem gera uma fé ansiosa, pesada e defensiva. Respeitá-la produz liberdade interior e maturidade espiritual.
À primeira vista, a frase parece contraditória. Como alguém que vem depois pode ser anterior? O Evangelho utiliza esse paradoxo para afirmar algo essencial: Jesus entra na história, mas não começa nela. Ele vem depois no tempo, mas é anterior no ser.
João Batista reconhece que a identidade de Jesus não é construída pela missão que Ele realizará. Jesus não se torna Filho por curar, ensinar ou entregar a vida. Ele faz tudo isso porque já é Filho. Sua ação não cria sua identidade; ela a manifesta. Aqui o texto toca um ponto sensível da experiência humana: a tendência de tentar existir a partir do desempenho.
Quando a identidade depende do que se faz, a missão se torna frágil. Ela passa a exigir resultados, reconhecimento e validação constante. O grande risco é a pessoa se sentir como um fiscal de Deus. Passa a acreditar que sua missão é fiscalizar o que os outros fazem. O Evangelho, porém, afirma outra lógica: o agir nasce do ser, não o contrário.
A grandeza de João Batista não está apenas no que ele diz sobre Jesus, mas no que ele aceita perder para que a verdade apareça. Ele não disputa espaço, não negocia relevância, não tenta preservar protagonismo. Sua identidade não depende de permanecer no centro. João Batista sabe quem Jesus é. Por isso, ele sabe quem não precisa ser. Não precisa fiscalizar o que Jesus irá fazer. Pode tranquilamente sair de cena.
Esse é um ponto decisivo do texto: quem reconhece a identidade de Cristo não precisa defender a própria identidade com ansiedade. João não se diminui por fracasso; ele se diminui por lucidez. Ele não se apaga; ele se reposiciona. Deixa Jesus agir, onde talvez ele, João Batista, não podia agir.
O testemunho de João revela que maturidade espiritual não é ocupar lugares, mas saber sair deles quando necessário. A fé adulta não é aquela que acumula funções, mas aquela que reconhece quando o centro pertence a Outro, no caso, a Deus. Sim, é a Ele que pertence a decisão final, não a nós, que muitas vezes agimos pelo que pensamos ser o certo.
O Evangelho de João denuncia, de forma implícita, um risco permanente da vida cristã: transformar a missão em fonte de identidade. Quando isso acontece, o fazer deixa de ser resposta e passa a ser tentativa de construção de valor.
Nesse cenário, surgem as perguntas distorcidas:
- Estou fazendo o suficiente?
- Sou reconhecido?
- Meu esforço está sendo visto?
A missão, então, deixa de ser espaço de doação e se torna campo de comparação. Onde você passa a acreditar que é o ponto de referência da salvação, e não mais Jesus. Nesse momento o serviço perde a leveza, a fé perde a alegria, e a neurose obsessiva por se tornar um fiscal de Jesus te transforma numa pessoa que vive se defendendo.
João Batista aponta outro caminho: a missão não serve para provar quem somos. Ela revela quem já somos a partir de Deus. Quando essa ordem é respeitada, o agir deixa de ser peso e se torna consequência natural.
O texto de João 1,29–34 não pergunta, em primeiro lugar, o que estamos fazendo para Deus, ou o que estamos fiscalizando para Jesus. Ele nos obriga a enfrentar uma questão mais radical e mais incômoda:
Essa pergunta antecede todas as outras. Ela não é teórica, mas existencial. Porque a resposta que damos a ela redefine nossa maneira de viver a fé.
Se Jesus é apenas um modelo ético, a missão vira cobrança.
Se Jesus é apenas um líder religioso, a fé vira desempenho.
Se Jesus é apenas uma ideia espiritual, o seguimento vira abstração.
Mas se Jesus é aquele que existia antes, se Ele é o Filho amado, então a missão deixa de ser construção de identidade e se torna resposta a um amor recebido. Assim João Evangelista ensina que:
- Missão não constrói identidade, mas revela de onde você parte;
- Se a missão nasce do amor recebido, é Evangelho, mas se nasce da necessidade de provar algo ou da ideia de fiscalizar, é ideologia.
Ligada a essa lógica joanina, a pergunta final do Evangelho não é funcional, é transformadora. Ela não diz respeito às tarefas, mas à pessoa que emerge do encontro com Cristo:
- Em quem eu me torno quando sei que não preciso provar meu valor?
- Em quem eu me torno quando sirvo não para ser amado, mas porque já sou?
- Em quem eu me torno quando minha identidade não depende do sucesso da missão?
João Batista responde com a própria vida. Ele se torna testemunha. Não retém para si, mas aponta para Jesus. Não se impõe como aquele que detém o conhecimento, mas revela que Jesus tem a sabedoria para acolher a todos. Não se confunde com a missão, mas a cumpre com liberdade.
Essa é a conversão silenciosa que o texto propõe: deixar de viver para sustentar uma imagem e começar a viver a partir de uma identidade recebida.
João 1,29–34 nos recorda uma verdade simples e exigente: a identidade vem antes da missão.
Quando essa ordem é invertida, a fé adoece. Quando ela é respeitada, a fé amadurece.
O Evangelho não nos chama a fazer, ele nos convida a crer profundamente no pouco que fazemos. Não se trata de acumular tarefas ou de supostamente fiscalizar em nome de Jesus, mas de enraizar a própria vida em quem Jesus é.
Só quem sabe quem é Jesus pode descobrir, sem ansiedade, em quem está se tornando.
Para te ajudar a refletir
Se você vive observando e cobrando os outros o tempo todo, isso geralmente não fala primeiro sobre eles, mas sobre o lugar interno de onde você está vivendo.
Alguns sinais do que pode estar por trás dessa postura:
Ansiedade por controle
- Observar demais costuma ser uma tentativa de garantir segurança.
- Quando não confio no fluxo da vida, passo a vigiar pessoas.
Identidade apoiada no desempenho alheio
- Cobrar os outros pode ser uma forma indireta de validar a si mesmo.
- “Se o outro falha, eu me sinto certo.”
Dificuldade de lidar com a própria fragilidade
- É mais fácil corrigir fora do que confrontar o que dói dentro.
- A cobrança externa muitas vezes encobre uma cobrança interna ainda mais dura.
Confusão entre cuidado e controle
- Nem toda cobrança é cuidado.
- O cuidado respeita processos; o controle exige resultados.
Eu observo para amar melhor ou para me proteger do que não controlo?
No Evangelho, Jesus olha profundamente, mas não vive fiscalizando. Ele chama, acompanha, provoca conversão, sem ansiedade.
Quem confia em quem é diante de Deus não precisa vigiar os outros o tempo todo. Descansa mais. Cobra menos. Ama melhor.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com