III Domingo do Tempo Comum | Ano A | 25/01/2026
Texto Bíblico: Mateus 4,12–23
Em continuidade direta com o II Domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo Mateus nos ajuda a aprofundar e concretizar o que foi refletido a partir de João 1,29–34.
Nos domingos anteriores, nossa atenção esteve voltada para Epifania, Batismo do Senhor e a identidade de Jesus. Agora, iniciamos um novo movimento: contemplar como essa identidade se manifesta na história concreta.
Para favorecer essa leitura, vale retomar o texto “Guiados por São Mateus ao coração de Jesus”, disponível no site do Santuário, onde se apresenta o eixo que sustentará a leitura do Evangelho ao longo do Ano Litúrgico de 2026. Ali, especialmente no item 4.1, encontramos três perguntas fundamentais que orientam nossa jornada:
- Quem é Jesus?
- O que Jesus veio fazer entre nós?
- O que Jesus ensina?
Essas perguntas não são apenas teóricas. Elas organizam a experiência de fé e ajudam a discernir como o Evangelho se traduz em vida.
Quem é Jesus? A identidade que precede a missão
Nos domingos anteriores, ficou claro que Jesus é o Filho que sabe de onde vem. Por isso, Ele não reage com medo, não disputa poder e não age movido pela ansiedade. Sua identidade é anterior a qualquer ação.
Em Mt 4,12, ao saber da prisão de João Batista, Jesus se retira para a Galileia. Esse gesto é profundamente revelador. Não se trata de fuga nem de recuo. Trata-se de discernimento. Jesus não reage impulsivamente nem entra em confronto direto. Ele lê os sinais da história e reposiciona a missão.
Aqui emerge um ensinamento central: a fidelidade à missão não é rigidez; é capacidade de escuta e adaptação sem perda de identidade. Jesus não precisa provar nada. Sua autoridade não nasce do embate, mas da fidelidade à própria origem. Ele age não para se tornar alguém, mas porque já sabe quem é.
Mateus nos mostra que nem toda reação é expressão de fé. Muitas vezes, reagir é apenas impulsividade disfarçada de zelo. Em Jesus, aprendemos que refletir é mais cristão do que reagir.
Ao longo dos Evangelhos, encontramos diversos momentos em que Jesus não reage impulsivamente, mas escolhe o silêncio, o discernimento e a misericórdia. Entre eles:
Mt 4,1–11 – As tentações no deserto;
Lc 4,28–30 – A rejeição em Nazaré;
Mc 3,1–6 – A cura no sábado;
Jo 8,1–11 – A mulher flagrada em adultério;
Mt 22,15–22 – O tributo a César;
Mt 26,47–56 – A prisão no Getsêmani;
Mt 26,62–63 – Jesus diante do Sinédrio;
Jo 19,8–11 – Jesus diante de Pilatos;
Mt 27,39–44 – As zombarias na cruz;
Lc 23,34 – O perdão na cruz.
Essas passagens revelam uma constante: Jesus não vive no reflexo da provocação, mas na fidelidade à missão recebida do Pai.
O que Jesus veio fazer entre nós? Salvar, não condenar
A identidade de Jesus nos conduz diretamente à segunda pergunta essencial: o que Ele veio fazer entre nós?
Jesus escolhe a Galileia, região periférica, misturada e marcada por fragilidades. Esse dado não é apenas geográfico, é profundamente teológico. Ele revela que a missão de Jesus não é preservar purezas religiosas, mas habitar a realidade humana como ela é.
Jesus não vem organizar um sistema nem restaurar uma ordem moral ideal. Ele vem aproximar Deus da vida concreta. Não vem fiscalizar a humanidade, mas revelar que Deus não desistiu dela.
É fundamental recordar: a intenção de Jesus é salvar, não condenar. O próprio Evangelho afirma que Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (cf. Jo 3,17).
Jesus não se apresenta como juiz que elimina, mas como médico que cura. A condenação nasce quando transformamos o medo em critério, a lei em arma e a verdade em instrumento de poder.
O Evangelho não pergunta quem merece punição, mas quem ainda precisa de salvação. Claro, começando por nós mesmos.
O que Jesus ensina? Converter-se é mudar a referência
Em Mt 4,17, Jesus inicia sua pregação com uma frase decisiva: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.”
Jesus não começa com normas, mas com anúncio. Não com exigências, mas com presença. A conversão, aqui, não é moralismo, mas mudança de referência (metanoia). Não se trata de comportar-se melhor, mas de reorganizar a vida a partir de Deus que se aproxima.
Quem vive tentando construir identidade moraliza. Quem vive a partir da identidade filial de Deus se humaniza.
Por isso, Jesus chama antes de mandar, convida antes de exigir, acompanha antes de corrigir. Ele sabe que a missão só é fecunda quando nasce de uma identidade enraizada.
Antes de agir, mesmo com boa intenção, é preciso perguntar: escutei de fato? Antes de nos posicionarmos com rapidez, é necessário discernir: estou respondendo à realidade ou apenas reagindo a um sentimento?
O que isso revela sobre o Reino de Deus?
O Reino de Deus não é um território nem um código moral. É uma relação nova inaugurada por Jesus. O chamado dos primeiros discípulos deixa isso claro.
Jesus não absolutiza fronteiras nem transforma a moral em critério de exclusão, mas revela um Deus que se aproxima, cura e salva.
Antes de alterar a missão dos discípulos, Jesus muda o centro da vida deles. Eles não seguem uma ideia, não aderem a uma doutrina abstrata, não recebem um manual. Eles seguem uma pessoa.
E porque seguem uma pessoa, conseguem deixar redes, barcos e seguranças. Não por desprezo à própria história, mas porque encontram uma identidade maior do que aquilo que antes os definia.
E aqui o Reino se revela:
- onde a vida é reorganizada a partir de Cristo;
- onde o medo cede lugar à confiança;
- onde a missão nasce da identidade, não da obrigação.
Mateus 4,12–23 confirma e aprofunda tudo o que o Evangelho já vinha anunciando:
- Quem é Jesus? O Filho que sabe quem é e de onde vem.
- O que Ele veio fazer? Tornar Deus próximo da vida real.
- O que Ele ensina? Não regras, mas um novo eixo para viver.
- O que isso revela sobre o Reino? Que Deus governa não pelo controle, mas pela proximidade que liberta.
Diante desse Evangelho, a pergunta que permanece não é apenas teológica, mas existencial:
Obs.: Não sigo Jesus para me tornar alguém. Sigo Jesus porque, n’Ele, descobri quem eu sou.
Algumas perguntas para ajudar a desinstalar certezas apressadas:
- O que, em mim, reage antes de escutar?
- O que eu chamo de convicção pode ser, na verdade, ansiedade?
- Quando me endureço, estou sendo fiel ao Evangelho ou apenas me protegendo?
- Minha ação nasce da escuta ou da necessidade de controle?
Aquele que não sabe quem é, reage. Já aquele que sabe quem é, discerne.
Não é o que defendemos com rigidez que nos torna leves, mas aquilo que, com humildade, permitimos que Deus transforme em nós.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com