III Domingo Tempo Pascal | Ano A | 12/04/2026

Tema: Quando o encontro muda a direção da vida
Texto Bíblico: Lucas 24,13–35 | João 20,19

Há momentos em que a fé não se perde por negação explícita, mas por deslocamentos silenciosos. Ninguém declara abandono, ninguém faz ruptura formal e, ainda assim, tudo se desorganiza por dentro.

O Evangelho de Lucas 24,13-35, lido à luz de João 20,19, revela esse momento crítico da comunidade dos discípulos: enquanto dois se afastam de Jerusalém, outros permanecem escondidos.

Não se trata de um contraste literário, mas de um diagnóstico espiritual. Diante da mesma crise, causada pela morte na cruz de Jesus, emergem duas reações: fuga e esconderijo. E ambas, se não forem atravessadas pela presença de Cristo, conduzem ao mesmo resultado, isto é, afastamento da fé e da vida.

A cruz não foi apenas um evento trágico, foi uma revelação. Até então, os discípulos conviviam com Jesus sob o impacto de seus milagres, de sua autoridade, da expectativa de um Messias que reorganizaria a história, mas se deparam com dor e desorganização emocional.

Havia fé, mas também havia projeção. Havia adesão, mas ainda misturada com expectativas não purificadas.

Quando a cruz acontece, não apenas Jesus morre. Morre a imagem que eles tinham de como Deus deveria agir.

É nesse ponto que a crise se torna inevitável. Mas vale recordar que a crise não cria o problema, ela apenas revela o que estava escondido nos corações: fé que ainda dependia de resultados visíveis e uma esperança que estava apoiada em expectativas humanas.

E dessa desestrutura, surgem duas respostas: fuga e o esconder-se.

A fuga

A fuga, que seria continuar caminhando, numa direção qualquer, retornar para casa e seguir a vida. Os discípulos de Emaús não rompem com tudo. Eles não negam explicitamente Jesus. Eles simplesmente se afastam.

Continuam caminhando. Continuam conversando. Continuam interpretando os acontecimentos. Mas caminham para longe de Jerusalém, longe do lugar da promessa, longe do centro da revelação, longe da comunidade.

Esse é o aspecto mais sutil e, ao mesmo tempo, mais perigoso da fuga:

  • não há escândalo;
  • não há ruptura pública;
  • há apenas deslocamento progressivo.

Eles ainda falam de Jesus, mas já não caminham com Ele.

Essa dinâmica permanece atual. Quantas vezes a pessoa:

  • mantém a linguagem da fé;
  • conserva práticas externas;
  • continua inserida em ambientes religiosos.

E, no entanto, interiormente, já se deslocou. A fuga espiritual raramente é dramática. Ela é silenciosa. E, por isso mesmo, mais difícil de perceber.

O esconder-se

Outra resposta é o esconder-se, que nesse contexto bíblico pode ser compreendido como permanecer, mas sem se expor. Os que permanecem no cenáculo, expressam uma reação diferente, mas não menos problemática.

Os discípulos não se afastam, mas se fecham. As portas estão trancadas. O movimento cessa. A iniciativa desaparece. Permanece uma fé mínima que é suficiente para não abandonar totalmente, mas insuficiente para sustentar a vida.

Podemos dizer que é a espiritualidade da sobrevivência:

  • evita riscos;
  • evita exposição;
  • evita confronto com a realidade.

Se na fuga há movimento sem direção, no esconderijo há permanência sem vida.

E aqui está um ponto que exige lucidez pastoral: permanecer não é o mesmo que viver a fé. Há quem nunca tenha saído da Igreja, mas também nunca tenha atravessado a verdade da fé.

A raiz comum

Apesar das diferenças externas, fuga e esconderijo nascem da mesma raiz:

  • medo;
  • frustração;
  • decepção;
  • quebra de expectativa.

Isto porque, num primeiro momento a cruz não foi compreendida, mas sim interpretada como fracasso. E, quando Deus não corresponde ao que se esperava, duas tendências emergem:

  • afastar-se para não lidar com a dor;
  • fechar-se para não se expor novamente.

Nos dois casos, o centro deixa de ser Deus, e passa a ser a autopreservação.

Por isso, embora diferentes na forma, ambas as atitudes conduzem ao mesmo ponto: a fé não amadurece.

A iniciativa de Cristo

E aqui chega-se ao ponto central do Evangelho, que não está na reação dos discípulos, mas na iniciativa de Cristo. Ele não espera que eles se reorganizem.

  • aos que fogem, Ele se aproxima e caminha junto;
  • aos que se escondem, Ele entra mesmo com as portas fechadas.

Deus não abandona o ser humano na sua desordem.

Mas é igualmente importante perceber: Ele também não valida essa desordem.

Em Emaús, Jesus corrige: “Ó insensatos e lentos de coração…”. No cenáculo, Ele envia: “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio.”

Ou seja, a presença de Cristo não é apenas consoladora. Ela é transformadora e exigente. Nos dois relatos, o encontro com Cristo provoca uma mudança concreta.

  • Em Emaús: a fuga se transforma em retorno.
  • No cenáculo: o medo se transforma em missão.

O encontro com Cristo muda a direção da vida.

Sem isso, o que houve não foi encontro, mas apenas emoção, ideia ou consolo momentâneo.

A crise não é o destino

A crise é inevitável. Mas ela não é o destino. A fé cristã não nega a dor nem ignora a frustração. Mas também não se estabelece nelas.

Ela segue outro caminho:

  • atravessa a crise;
  • purifica as expectativas;
  • reconstrói a relação com Deus.

É nesse processo que a fé deixa de ser:

  • dependente de resultados;
  • sustentada por ideias;
  • apoiada em projeções.

E se torna:

  • relação real;
  • confiança perseverante;
  • adesão que permanece.

“Enquanto dois fogem, outros se escondem.”

Essa frase não descreve apenas os discípulos. Ela descreve possibilidades concretas da vida de fé hoje. E diante disso há perguntas que precisam ser feitas:

  • Onde você está fugindo, mantendo movimento, mas perdendo direção?
  • Onde você está escondido, permanecendo, mas evitando viver de fato?

O risco é real, pois você pode continuar caminhando e não perceber que está se afastando, ou pode permanecer, mas ainda assim não estar vivendo.

O Evangelho, porém, não termina na fuga nem no medo. Ele termina no encontro. E é esse encontro que define tudo:

  • quem foge, retorna;
  • quem se esconde, é enviado;
  • quem encontra Cristo, não permanece o mesmo.

A fé não recomeça quando você se organiza. Ela recomeça quando, no caminho real em que você está, Cristo te encontra, e você permite que Ele mude sua direção.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

Horário de Atendimento

Segunda-feira

13h30 às 17h

Terça à Sexta-feira:

9h às 12h | 13h30 às 17h

Sábado:

9h às 12h

© 2025 Criado por MB3 tech