Jó e o sofrimento - Abrir a Escritura pelo humano
Este projeto nasce de uma convicção simples: a Bíblia não é, antes de tudo, um livro de respostas, mas um livro de encontros. Nela, não encontramos soluções prontas para a vida, mas histórias reais de pessoas tentando permanecer humanas diante de Deus.
Ler a Escritura a partir dessa chave significa aceitar que a fé não cresce protegendo certezas, mas atravessando processos. Significa permitir que o texto nos desinstale, questione imagens prontas de Deus e devolva a espiritualidade ao lugar da relação, não do controle.
Por isso, o ponto de partida é o Livro de Jó. Ele não explica o sofrimento, mas educa a consciência. Ensina que a fé amadurece quando deixa a rigidez e aprende a habitar o mistério. Jó mostra que Deus não se ofende com perguntas honestas e que a verdade ferida é mais fiel do que discursos impecáveis.
A partir de Jó, este projeto percorre outros livros do Antigo Testamento não para repetir o tema da dor, mas para explorar dimensões fundamentais da vida humana: decisão, cuidado, misericórdia, identidade, ética, responsabilidade e resistência. Em cada texto, Deus não aparece como resposta pronta, mas como presença que atravessa escolhas e relações.
Este não é um percurso cronológico nem acadêmico. É um caminho humano. Um convite a ler a Bíblia como espelho da nossa própria travessia, onde a fé deixa de ser defesa e se torna encontro, escuta e maturidade.
Começamos com Jó porque toda fé adulta, em algum momento, precisa passar por ele. Seguimos adiante porque a vida continua e, com ela, a busca, a responsabilidade e a esperança.
Janeiro
O Livro de Jó permanece como um dos textos mais intrigantes e fecundos de toda a tradição bíblica. Ele não se limita a reconhecer a existência do sofrimento; coloca-o no centro da experiência de fé, recusando explicações fáceis e desmontando qualquer tentativa de justificar a dor do justo por meio de esquemas morais.
Jó sofre não apesar de sua justiça, mas sendo justo, e é justamente aí que o texto se torna escandaloso, atual e profundamente humano.
No início do livro, o mundo de Jó está organizado por uma lógica rígida: o justo é recompensado, o ímpio é punido, Deus garante a ordem moral do universo. Essa estrutura oferece segurança e previsibilidade, mas cobra um preço alto: quando o sofrimento irrompe sem explicação, ela não suporta a vida real.
A rigidez não está apenas nos amigos de Jó; ela atravessa toda uma forma de crer que precisa de respostas imediatas para continuar existindo.
Desde o prólogo, o texto bíblico exclui qualquer interpretação moralista do sofrimento de Jó. Ele é apresentado como “íntegro e reto, temente a Deus e afastado do mal” (Jó 1,1). O sofrimento, portanto, não decorre de culpa. Com isso, o livro desmonta a chamada teologia da retribuição.
O sofrimento desmonta essa rigidez por dentro. Tudo aquilo que sustentava a fé de Jó — bens, prestígio e reconhecimento religioso — se desfaz. Resta apenas a experiência nua da dor e uma consciência que se recusa a mentir para sobreviver.
Ao insistir em sua integridade, Jó rompe com uma fé defensiva e inaugura uma fé exposta, vulnerável, sem garantias. Ele já não fala para preservar sistemas religiosos ou imagens seguras de Deus, mas para permanecer verdadeiro:
Os amigos representam a rigidez que prefere perder o ser humano a perder a doutrina. Falam corretamente sobre Deus, mas falham em falar com Deus e, sobretudo, em falar com o sofredor.
Suas palavras são coerentes do ponto de vista teológico, mas estéreis do ponto de vista humano. Jó, ao contrário, arrisca o grito, a queixa e a pergunta. Sua linguagem é áspera, por vezes desconcertante, mas é viva.
E é justamente essa palavra ferida que Deus reconhece como justa:
Nesse ponto, o livro realiza um deslocamento decisivo. Deus não se revela aliado da rigidez moral, mas da misericórdia que nasce do contato honesto com o sofrimento.
Jó não é elogiado por ter suportado calado, mas por ter permanecido em relação. A misericórdia aqui não é sentimentalismo nem condescendência, é maturidade espiritual.
À luz da psicologia, Jó atravessa um processo de individuação: perde todas as seguranças externas e permanece apenas com a própria consciência. O resultado não é uma explicação, mas uma transformação:
O sofrimento não destrói Jó; ele o aprofunda. Ele não encontra o “porquê” da dor, mas um “para quê”: permanecer verdadeiro diante de Deus.
Os amigos falam sobre Deus; Jó fala com Deus. Mesmo quando protesta, ele não rompe a relação. Seu grito é oração. Sua revolta é forma extrema de fidelidade.
A fé madura não elimina o conflito, mas sustenta o diálogo. O mal não se explica, apenas se interpreta. A fé passa da ingenuidade à maturidade, da certeza à confiança, da explicação à escuta.
Jó ensina que a fé não amadurece quando tudo se encaixa, mas quando se aprende a habitar o que não se explica. A rigidez exige respostas; a misericórdia abraça o mistério.
Por isso, ao final do livro, a restauração de Jó não pode ser lida apenas como recompensa material, mas como sinal de um coração transformado.
À luz da fé cristã, esse itinerário encontra eco na cruz. Deus não explica o sofrimento: Ele entra nele.
O Livro de Jó educa a fé para o cuidado, para a escuta e para a compaixão. Ensina que a verdadeira espiritualidade não nasce da rigidez que julga, mas da misericórdia que se aproxima, permanece e sofre com.
Jó não oferece respostas prontas, mas forma consciências. E consciências formadas pela travessia do sofrimento aprendem a olhar o outro e a Deus não a partir do medo, mas da misericórdia.
Referências
- BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
- JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Petrópolis: Vozes, 2008.
- FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes.
- BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro.
- RICOEUR, Paul. O mal: um desafio à filosofia e à teologia. Campinas: Papirus.
- THICH NHAT HANH. Sem Lama Não Há Lótus. Petrópolis: Vozes.
- CADERNOS BÍBLICOS. O Livro de Jó. São Paulo: Paulus.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com