Fevereiro | Livro de Ester: decisão e responsabilidade
Livro Bíblico: Ester
O livro de Ester é, talvez, um dos textos mais desconcertantes da Bíblia. Nele, Deus não fala, não aparece, não intervém de modo explícito. Não há milagres, visões, profetas ou oráculos. E, ainda assim, tudo gira em torno da vida, da morte e da responsabilidade humana.
Ester nos coloca diante de uma fé sem linguagem religiosa e, justamente por isso, profundamente exigente. Esse silêncio não é descuido do texto, mas parte de sua pedagogia. O livro ensina que há momentos em que a vida não oferece sinais claros, nem confirmações espirituais, nem garantias. Nesses momentos, a fé deixa de ser espera passiva e se transforma em discernimento responsável.
Não decidir também passa a ser uma decisão — e, quase sempre, uma decisão perigosa.
O silêncio de Deus como pedagogia
Na versão hebraica do livro de Ester, não aparece nenhuma referência direta a Deus. Já na tradução grega, a Septuaginta, surgem acréscimos explícitos: orações, súplicas e menções diretas à ação divina. Essa diferença não é apenas técnica ou linguística, ela revela duas sensibilidades espirituais distintas.
O texto hebraico preserva o silêncio como espaço pedagógico: Deus não é nomeado para que a responsabilidade humana não seja deslocada. Já a Septuaginta responde à necessidade de leitores que associam fé à presença verbal de Deus.
O Ester hebraico ensina que Deus pode estar presente sem ser citado, agindo não por intervenções visíveis, mas por meio da consciência, do discernimento e da coragem humana.
Uma fé que assume risco
Ester vive nesse limiar. Não é profetisa, nem líder religiosa. É uma mulher inserida numa engrenagem política complexa, marcada por poder, violência e interesses. Sua história não é idealizada. E é justamente aí que o texto se torna tão humano.
Diante da ameaça ao seu povo, Mardoqueu a interpela: “Quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste à realeza?” (Est 4,14). Não há promessa de sucesso. Apenas risco.
A resposta de Ester é densa: “Se eu tiver de morrer, morrerei.” (Est 4,16). Não é fatalismo, é responsabilidade. Ela aceita as consequências da própria escolha.
Diálogos com a psicologia e a filosofia
Carl Gustav Jung ajuda a compreender essa maturidade. Para ele, amadurecer é deixar de projetar fora aquilo que precisa ser assumido internamente. Ester não projeta sua responsabilidade em Deus; ela age. Trata-se de um movimento de individuação.
Jung afirmava: “Vocatus atque non vocatus Deus aderit” — evocado ou não, Deus estará presente. Essa intuição dialoga profundamente com Ester: Deus não é nomeado, mas está presente na consciência que decide.
Viktor Frankl acrescenta que, mesmo nas situações limites, o ser humano conserva a liberdade de escolher sua atitude. Ester não escolhe a situação, mas escolhe como responder a ela.
Lev Vygotsky permite perceber que sua consciência não nasce isolada, mas no diálogo com Mardoqueu. A decisão é pessoal, mas não individualista.
Papa Bento XVI insistia que a fé não substitui a consciência, mas a forma. A verdadeira fé exige discernimento ético. Ester encarna essa consciência reta: escuta a realidade, lê o tempo histórico e assume as consequências.
Agir quando Deus silencia
O livro de Ester educa para uma fé psicologicamente adulta e eticamente exigente. Deus não aparece resolvendo o problema; aparece na iniciativa e coragem humana.
Entre fugir da realidade em nome da religião e agir sem referência ética, Ester aponta um caminho humano: agir com consciência quando Deus silencia.
Não porque Deus esteja ausente, mas porque, naquele momento, a responsabilidade foi confiada ao humano.
Quando Deus silencia, a consciência é quem decide.
Referências
- BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
- FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2019.
- JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2011.
- JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Petrópolis: Vozes, 2011.
- RATZINGER, Joseph (BENTO XVI). Consciência e verdade. São Paulo: Paulus, 2007.
- VYGOTSKY, Lev Semionovich. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com