V Domingo Tempo Pascal | Ano A | 03/05/2026
Texto Bíblico: Jo 14,1-12
Há palavras do Evangelho que, de tão repetidas, acabam sendo esvaziadas. Tornam-se familiares, mas deixam de ser compreendidas. Uma delas está no coração do Evangelho deste domingo: “Na casa do Pai há muitas moradas.” (João 14,2).
Quase sempre, essa frase é entendida como promessa de um lugar no céu. Uma imagem reconfortante: muitas casas, muitos espaços, todos acolhidos no final. Mas, se ficarmos apenas nisso, perderemos o que Jesus realmente quis dizer.
Porque Jesus não está descrevendo o céu. Ele está respondendo ao medo.
O capítulo 14 do Evangelho de João começa com uma frase que revela o estado interior dos discípulos: “Não se perturbe o vosso coração.” Isso já nos diz tudo. Eles estão perturbados, desestabilizados e inseguros. E não é para menos.
Jesus fala de partida, de separação, de um caminho que eles ainda não compreendem. Aqueles que deixaram tudo para segui-Lo agora sentem que estão prestes a perder tudo. O problema não é falta de fé. É falta de chão. E é nesse contexto que surge a frase das “muitas moradas”.
Quando alguém está com medo de perder tudo, não precisa de explicação técnica. Precisa de segurança existencial. E Jesus não responde dizendo: “vai dar tudo certo”. Ele responde revelando algo mais profundo: “vocês pertencem ao Pai”. Essa é a chave do texto.
“Na casa do Pai há muitas moradas” não é uma informação geográfica, mas uma afirmação de pertencimento. A pergunta não é: há espaço suficiente para mim? A pergunta é: eu sei onde pertenço?
O ser humano pode ter muitos lugares, mas, se não tiver pertencimento, continuará deslocado. Por isso, o maior problema não é a falta de espaço, mas a ausência de raiz. A palavra “morada”, no sentido bíblico, não indica um espaço físico, mas uma realidade existencial: permanência. Morada é onde alguém:
- permanece;
- se estabelece;
- encontra estabilidade.
Isso muda completamente a compreensão do texto. Quando Jesus fala de “muitas moradas”, Ele não está prometendo “lugares disponíveis”. Ele está revelando que existe espaço real de permanência em Deus. Morada não é para onde você vai. É onde você permanece. Aqui está um ponto que precisa de nossa atenção.
Muitas vezes, a fé é vivida como projeção para o futuro. Algo que será plenamente vivido depois da morte. Como se a relação com Deus fosse adiada. Mas o Evangelho não sustenta isso. A promessa de Jesus não começa depois. Ela começa agora.
A fé cristã não é apenas esperança de céu. É aprendizado de habitar em Deus no presente. Isso exige uma mudança de mentalidade: não se trata apenas de “chegar a Deus um dia”, mas de permanecer n’Ele hoje.
Se olharmos com honestidade para o nosso tempo, perceberemos algo evidente: nunca tivemos tantos espaços e nunca fomos tão inquietos. O problema não é falta de lugar, mas a falta de morada interior. Vivemos uma realidade marcada por:
- agitação constante;
- identidades fragmentadas;
- excesso de estímulos;
- pouca profundidade.
Passamos por tudo. Experimentamos muito, mas permanecemos pouco. E isso tem um preço. Quem não permanece em nada, não encontra consistência em si mesmo.
Sem uma morada interior, o ser humano entra em busca constante de abrigo. Procura estabilidade em:
- relações afetivas;
- sucesso profissional;
- aprovação social;
- prazer imediato.
Mas nada disso sustenta de forma definitiva. Não porque sejam ruins em si mesmos. Mas porque não foram feitos para ocupar o lugar que pertence a Deus. E então surge o ciclo:
Mas o coração humano não foi feito para o provisório. Foi feito para permanecer.
No centro do texto está uma afirmação que não pode ser relativizada: “Eu vou preparar-vos um lugar. Eu sou o caminho.”
Essas duas frases não podem ser separadas. Jesus não prepara um lugar distante d’Ele. Ele se torna o próprio caminho para a morada.
Isso significa: a morada não é um destino geográfico. É uma relação viva com Cristo. Não é algo que você conquista. É alguém com quem você permanece. Quando alguém começa a viver essa realidade, algumas mudanças se tornam evidentes:
- a pessoa não precisa mais buscar tudo ao mesmo tempo. Há um eixo interior;
- a estabilidade já não depende totalmente das circunstâncias. Nem tudo precisa dar certo para haver paz;
- deixa de ser apenas ideia, teoria ou discurso. Passa a ser experiência de presença contínua.
Diante desse Evangelho, não basta compreender o conceito. É necessário responder: onde você está morando interiormente hoje?
- na ansiedade;
- no medo;
- na necessidade de aprovação;
- na instabilidade constante?
Ou você começou a aprender a permanecer em Deus?
Há uma realidade que não pode ser ignorada: quem não encontra morada em Deus, vive pedindo abrigo ao mundo. E o mundo não consegue sustentar aquilo que só Deus pode oferecer. Por isso, é possível ter: casa, trabalho sem integração e relações e, ainda assim, não ter onde descansar por dentro.
“Na casa do Pai há muitas moradas”, mas o Evangelho não termina nessa frase. Ele demanda uma decisão. A questão não é quantas moradas existem. A questão é:
- Você já encontrou a sua?
E mais profundamente: você está disposto a permanecer nela?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com