VI Domingo do Tempo Comum | Ano A | 15/02/2026
Texto Bíblico: Mateus 5,17–37
Um sábio ensinava seu aprendiz sobre a vida e lhe disse: “Existe uma batalha dentro de cada pessoa. É a luta entre dois lobos: um mau e um bom. Qual deles vencerá?” O jovem, após hesitar, respondeu: “O mais forte”. O sábio então perguntou: “E qual deles é o mais forte?” Depois de um longo silêncio, vendo que o aprendiz não sabia responder, concluiu: “Aquele que você continuar alimentando”.
A imagem dos dois lobos ajuda a reconhecer algo muito humano. Dentro de nós existem forças contraditórias. Há um impulso que reage com agressividade, medo e ressentimento. E há outro inclinado à mansidão, à lucidez e à compaixão. Muitos repetem a frase: “vence o que você alimenta”. Mas raramente se presta atenção ao detalhe mais exigente: vence aquele que você continua alimentando.
Não é o impulso ocasional que define o coração. É a repetição interior.
No trecho do Evangelho deste domingo, Jesus não discute apenas comportamentos externos, mas desloca o eixo da vida moral para um lugar mais profundo e exigente: o coração. Ele não revoga os mandamentos, Ele os leva à raiz dizendo:
- Ok! Você não mata, mas e a ira que você cultiva no teu coração?
- Ok! Você não cometeu adultério, mas e o teu olhar de julgamento sobre os outros?
- Ok! Você não levanta falsos testemunhos, mas e a intenção de manipular os outros?
Jesus não vai abolir a Lei, nem a endurecer, mas quer que ela seja interiorizada.
O mal, diz o Evangelho, raramente começa como ato, mas se inicia como nutrição invisível. “Eu não faço o mal.” Ok! Mas pode estar alimentando-o quando ninguém vê.
Não é o sentimento que te torna uma pessoa má, pois raiva é humana, a inveja pode revelar carências, o medo é uma reação natural. Sentir, por si só, não desorganiza o coração. O que te desorganiza é a adesão cega ao sentimento, quando você deixa que ele te conduza sem nenhum discernimento.
Aderir é mais do que experimentar uma emoção. É acolhê-la, justificá-la, protegê-la e permitir que ela se instale. É o momento silencioso em que você diz interiormente: “Eu fico com isso.” Isto é, fico com o ressentimento, fico com o desprezo, fico com a narrativa que sempre me coloca como vítima ou sempre como “justo”.
O processo é lento e quase imperceptível onde:
- primeiro, você sente;
- depois, começa a justificar, alimentando o que está sentindo;
- em seguida passa a repetir internamente;
- inicia a incorporação do sentimento como uma verdade;
- e, por fim, começa a agir, projetando sobre os outros.
Enquanto a emoção é um impulso, o mal se torna um consentimento prolongado. É por isso que Jesus fala da ira cultivada, do olhar que se fixa, da palavra que nasce do coração dividido. Aquilo que você está nutrindo, está silenciosamente crescendo dentro de você.
- Se nutre ofensas antigas, cresce a dureza;
- Se nutre justificativas constantes, cresce a autodefesa;
- Se nutre comparações, cresce a inveja;
- Se nutre superioridade moral, cresce a rigidez.
Mas o Evangelho é luz e sal, como visto na semana passada, por isso o inverso também é verdadeiro:
- Se nutre perdão, cresce liberdade;
- Se nutre humildade, cresce comunhão;
- Se nutre verdade interior, cresce unidade.
O teu coração se molda a partir do que você está dando para ele. A grande ilusão espiritual é acreditar que o mal só existe quando se torna visível. Mas quando ele aparece externamente, já estava sendo alimentado há muito tempo dentro de você mesmo.
A maturidade espiritual, portanto, não consiste em eliminar sentimentos, mas em não se identificar totalmente com eles. Não se vence o “lobo feroz” tentando matá-lo. Ele muitas vezes nasce de feridas, inseguranças, medo de perder controle. Se negado, transforma-se em sombra projetada no outro. Se reconhecido, pode ser integrado. E assim a raiva pode se tornar firmeza, o impulso pode se tornar coragem e a energia agressiva pode se tornar defesa justa.
São João da Cruz ensina que a purificação não é anulação dos afetos, mas ordenação; não é repressão, mas transformação. O verdadeiro risco não é ter sombras interiores, mas negá-las e usá-las para julgar o outro.
Por isso, creio que a pergunta decisiva deste domingo não seja: “Qual lobo é mais forte?”, mas:
- Quem está governando minhas decisões hoje?
- Com o que estou concordando interiormente?
- Que tipo de pessoa estou me tornando no silêncio das minhas repetições?
Fé não é apenas evitar o mal visível. É discernir o que se está cultivando quando ninguém está te olhando.
Não fazer o mal é dever de todo cristão. Mas deixar de nutri-lo por dentro é o início da verdadeira conversão.
O mal não nasce no impulso. Nasce no “sim” silencioso dado ao que desumaniza.
Mas a boa notícia do Evangelho, dada por Jesus, é que assim como o coração se endurece por adesão, ele também se ilumina pelo mesmo mecanismo.
Todo “sim” pode ser revisto. Toda repetição pode ser interrompida. Toda nutrição pode ser redirecionada. Aliás, há alguns domingos vimos que, com a prisão de João Batista, Jesus não reage, mas reorganiza sua missão.
O Reino começa no invisível, isto é, no lugar onde você pode decidir todos os dias o que deseja nutrir em tua vida.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com