V Domingo Tempo Pascal | Ano A | 10/05/2026
Texto Bíblico: Jo 14,15-21
Os Evangelhos do Tempo Pascal formam um verdadeiro caminho espiritual. Não são textos isolados, escolhidos apenas para recordar aparições de Jesus ressuscitado. Eles revelam o lento amadurecimento da fé dos discípulos e também o nosso.
No início, encontramos homens desorientados, feridos, incapazes de reconhecer a presença de Cristo. Aos poucos, porém, o Ressuscitado os conduz da confusão ao discernimento, do medo à permanência, da instabilidade à comunhão profunda com Deus.
Tudo começa no caminho de Emaús. Dois discípulos caminham para longe de Jerusalém. Estão frustrados. A cruz destruiu suas expectativas. O que esperavam de Deus não aconteceu da forma imaginada. E, então, acontece algo profundamente humano: continuam caminhando, continuam falando sobre Jesus, mas já não conseguem reconhecê-Lo.
Jesus está ao lado deles, mas seus olhos permanecem fechados. O problema não era ausência de Cristo. O problema era a incapacidade interior de percebê-Lo. A dor havia reorganizado o olhar. A frustração se tornara filtro. E isso continua acontecendo hoje. Quantas vezes continuamos caminhando, mas interiormente afastados? Quantas vezes seguimos falando de Deus, frequentando a Igreja, rezando, mas vivendo como se estivéssemos sozinhos?
Emaús revela uma verdade desconcertante: nem toda caminhada é avanço. Algumas são apenas fuga disfarçada de movimento. Mas Jesus não abandona os discípulos no caminho errado. Ele se aproxima, escuta, corrige e ilumina. E somente depois, no partir do pão, eles finalmente O reconhecem. A fé começa a amadurecer quando o coração deixa de interpretar tudo apenas pela dor e se abre novamente para a presença.
Depois de Emaús, surge uma pergunta inevitável: se os discípulos foram incapazes de reconhecer Jesus, como discernir o caminho verdadeiro? É exatamente aqui que o Evangelho do Bom Pastor se torna central. “As ovelhas escutam a sua voz… E o seguem.” Jesus não apresenta um conjunto de técnicas espirituais. Ele fala de relação. A fé amadurece quando o discípulo aprende a discernir a voz que conduz sua vida. E isso se torna ainda mais urgente no mundo atual. Nunca houve tantas vozes disputando o interior humano:
- opiniões constantes;
- redes sociais;
- discursos religiosos;
- promessas de felicidade rápida;
- espiritualidades superficiais.
Tudo fala. Tudo tenta conduzir. Mas Jesus oferece um critério decisivo: a voz verdadeira gera vida. Não é o discurso que precisa ser avaliado, mas as consequências que ele produz. A voz que vem de Deus:
- não destrói;
- não escraviza;
- não fragmenta o coração.
Ela conduz à verdade, organiza o interior e gera vida real. Por isso, o discernimento espiritual não é apenas escolher aquilo que agrada, mas reconhecer aquilo que verdadeiramente conduz à vida. É, então, que João 14 aprofunda ainda mais o caminho da fé. Jesus declara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Essa frase muda tudo.
Jesus não diz: “eu ensino um caminho”. Ele afirma: “Eu sou.” A fé cristã deixa então de ser apenas concordância intelectual com algumas ideias religiosas e se torna seguimento de uma Pessoa. Esse, talvez, seja um dos maiores dramas do nosso tempo: muita gente conhece conteúdos sobre Deus, mas poucos aprenderam a permanecer em Cristo. E é justamente aqui que Jesus revela uma das frases mais belas, e mais mal compreendidas, do Evangelho: “Na casa do Pai há muitas moradas.”
Muitos interpretam isso apenas como promessa de um lugar no céu. Mas Jesus não está falando de “quartos preparados depois da morte”. Ele está respondendo ao medo dos discípulos. Eles sentem que estão perdendo tudo. E Jesus responde: vocês pertencem ao Pai. A questão não é “há espaço suficiente?”. A verdadeira questão é: você sabe onde pertence? Morada, no Evangelho de João, não significa apenas lugar físico. Significa permanência. Habitação. Relação estável. Por isso, “morada” não é para onde você vai um dia. É onde você aprende a permanecer já agora. E aqui o Evangelho toca uma ferida profundamente atual. O grande drama do homem contemporâneo não é falta de espaço. É falta de morada interior, pois vivemos tempos de:
- vidas agitadas;
- identidades fragmentadas;
- excesso de estímulos;
- pouca permanência.
Passamos por tudo, mas permanecemos em poucas coisas. E quem não encontra morada interior acaba procurando abrigo em qualquer lugar:
- relações;
- trabalho;
- aprovação;
- prazer imediato.
Mas nada sustenta plenamente o coração humano. Porque o coração foi criado para permanecer em Deus. É exatamente por isso que Jesus não oferece apenas consolo emocional. Ele oferece presença. E essa talvez seja a passagem mais exigente do caminho pascal. Em João 14,15-21, Jesus revela que amar não é apenas sentir algo por Deus. Amar é permanecer. “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” Aqui aparece um ponto decisivo da maturidade espiritual.
A fé infantil depende de sentir. A fé madura aprende a permanecer. Hoje, muitos confundem intensidade emocional com presença de Deus. Quando as coisas correspondem ao que elas querem, ou reforçam o que elas creem, acreditam que Deus está próximo, mas quando são confrontadas, questionadas e chamadas a pensar com misericórdia, concluem que Deus se afastou. Mas o Evangelho não sustenta isso.
Jesus nunca prometeu uma vida espiritual baseada em emoções constantes. Em nenhum momento Ele disse que a fé seria uma sucessão contínua de sentimentos agradáveis. O que Ele prometeu foi algo muito mais profundo e mais exigente: presença. E presença é diferente de emoção. As emoções oscilam. A presença de Deus, não. Há momentos em que:
- a oração parece vazia;
- o coração se sente cansado;
- a Palavra já não emociona como antes;
- a consolação desaparece;
- o silêncio interior pesa.
E, justamente nesses momentos, muitos começam a acreditar que perderam Deus.
Mas talvez seja exatamente o contrário. Porque existe uma forma infantil de fé que permanece apenas enquanto existe emoção. Enquanto tudo toca o coração, a pessoa reza, busca, permanece. Mas quando vêm a secura, o silêncio e o aparente vazio, ela se afasta. Não porque Deus desapareceu, mas porque estava acostumada a sustentar a fé nas próprias sensações. Só que Deus é maior do que aquilo que sentimos sobre Ele. O Ressuscitado continua presente:
- mesmo quando não é percebido;
- mesmo quando não é sentido;
- mesmo quando o coração atravessa noite e silêncio.
E é exatamente aí que o amor amadurece. Porque permanecer quando tudo é agradável, é fácil. Difícil é permanecer quando não há recompensa emocional imediata. Difícil é continuar rezando quando não se sente nada. Difícil é continuar confiando quando o coração atravessa silêncio. Mas é justamente aí que a fé deixa de ser apenas emoção religiosa e se torna fidelidade.
O discípulo amadurece quando aprende que Deus não está preso às suas sensações. A ausência de emoção não significa ausência de Deus. Às vezes, Deus está agindo mais profundamente exatamente no silêncio. Porque há momentos em que Ele consola, mas há outros em que Ele sustenta em profundidade, purificando a fé de dependências emocionais.
A maturidade espiritual começa quando o coração deixa de buscar apenas experiências sensíveis e aprende a permanecer por amor. E, talvez, seja exatamente aqui que todo o caminho pascal encontre sua síntese:
- o coração que fugia em Emaús aprende a reconhecer;
- depois, aprende a discernir a voz do Pastor;
- descobre que o caminho não é uma ideia, mas Cristo;
- encontra sua morada em Deus;
- e, finalmente, amadurece no amor que permanece mesmo quando não sente.
Porque, no fim, a fé não amadurece quando tudo emociona. A fé amadurece quando, mesmo atravessando silêncio, secura e ausência de consolação, o coração decide permanecer. E talvez seja exatamente aí que a Ressurreição começa verdadeiramente dentro de nós.
Isso iremos meditar com maior profundidade no Evangelho da Ascensão da proxima semana. Jesus sobe ao Pai e deixa de estar visivelmente diante dos discípulos. A partir daquele momento, eles precisarão aprender uma fé que não depende mais da presença física, do toque imediato ou das emoções constantes. A Ascensão não é ausência de Cristo é amadurecimento da presença. O Ressuscitado já não será encontrado apenas diante dos olhos, mas dentro da vida, na Palavra, na Eucaristia, no Espírito e na permanência fiel do coração. A fé adulta nasce justamente aí: quando o discípulo continua caminhando, continua amando e continua permanecendo, mesmo quando já não pode ver.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com