XIII Domingo do Tempo Comum | Solenidade de São Pedro e São Paulo | Ano A
Texto Bíblico: Mt 16,13-19
Existe um momento na vida em que toda pessoa deixa de viver das respostas dos outros e precisa responder por si mesma. Na infância, aprendemos quem é Deus pela voz dos nossos pais. Na catequese, recebemos os primeiros conteúdos da fé. Na comunidade, escutamos homilias, testemunhos e ensinamentos que ajudam a formar nossa consciência. Tudo isso é importante. Mas chega um momento em que nenhuma dessas respostas é suficiente. É exatamente esse momento que o Evangelho deste domingo nos apresenta.
Ao longo dos últimos domingos, Jesus foi conduzindo seus discípulos por um verdadeiro caminho de amadurecimento espiritual.
Primeiro, Jesus chamou Mateus (Mt 9,9-13) e mostrou que ninguém precisa tornar-se perfeito para ser chamado. O Reino de Deus não começa no mérito, mas no encontro.
Depois, vimos Jesus contemplando as multidões cansadas e abatidas (Mt 9,36–10,8). Descobrimos que a missão nasce da compaixão. Antes de enviar os discípulos, Jesus ensina-os a olhar como Ele olha. Evangelização não nasce da necessidade de ocupar espaços, mas de um coração que aprendeu a sofrer com o sofrimento do outro.
Em seguida (Mt 10,26-33), fomos convidados a compreender que seguir Cristo é muito mais do que falar sobre Cristo. A profissão de fé não acontece apenas quando pronunciamos palavras religiosas. Ela acontece quando nossas escolhas confirmam aquilo que nossos lábios proclamam. A fé deixa de ser discurso e torna-se existência.
Agora chegamos ao centro desse caminho. Depois de chamar. Depois de ensinar. Depois de formar. Depois de enviar. Jesus faz uma pergunta, mas não a faz para às multidões, escribas ou fariseus. Ele pergunta aos discípulos. Àqueles que caminham diariamente com Ele.
As respostas surgem rapidamente. Uns dizem João Batista. Outros Elias. Outros Jeremias. Outros algum dos profetas. Todas essas respostas possuem algo em comum. Reconhecem que Jesus é extraordinário. Mas nenhuma delas alcança sua verdadeira identidade.
Então Jesus faz silêncio. Olha para os discípulos. E dirige-lhes a pergunta que atravessa toda a história da Igreja:
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de todo o Evangelho. Porque chega um momento em que já não basta saber o que os outros pensam sobre Jesus. Não basta repetir aquilo que aprendemos na catequese. Não basta conhecer a doutrina. Não basta admirar Cristo. A fé amadurece quando a resposta deixa de ser coletiva e torna-se profundamente pessoal.
Até aquele momento, os discípulos haviam visto milagres impressionantes. Tinham visto cegos recuperarem a visão. Leprosos serem purificados. Paralíticos voltarem a andar. Tempestades serem acalmadas. Demônios serem expulsos. Tinham presenciado multidões maravilhadas com o poder de Jesus. Mas agora Cristo faz uma pergunta que nenhum milagre pode responder:
Pedro toma a palavra.
É a mais bela profissão de fé registrada pelos Evangelhos. Jesus responde dizendo que aquela certeza não nasceu da inteligência humana. Foi o próprio Pai quem abriu os olhos de Pedro. A verdadeira fé é sempre graça antes de ser conquista. É Deus quem permite ao ser humano reconhecer o seu Filho.
Mas Mateus faz questão de mostrar que essa profissão de fé ainda precisava amadurecer.
Poucos versículos depois, Jesus anuncia pela primeira vez que deverá subir a Jerusalém, sofrer, ser rejeitado, morrer e ressuscitar. Pedro reage imediatamente:
Então recebe uma das palavras mais duras de todo o Evangelho:
Como explicar essa mudança tão brusca? Há poucos instantes Pedro era chamado de bem-aventurado. Agora é severamente corrigido.
O problema não estava na profissão de fé. O problema estava na compreensão do Messias. Pedro sabia quem Jesus era. Mas ainda não aceitava como Jesus seria o Cristo.
Ele acreditava num Messias glorioso. Mas ainda rejeitava um Messias crucificado.
É justamente aqui que a pergunta de Jesus revela toda a sua profundidade. No fundo, Cristo está perguntando aos discípulos:
Enquanto Jesus multiplicava os pães, realizava milagres e despertava a admiração das multidões, era relativamente fácil caminhar atrás dele. Mas, a partir deste momento, o Evangelho muda completamente de direção. Jesus começa a caminhar para Jerusalém. Começa a falar da cruz. Do sofrimento. Da rejeição. Da entrega da própria vida.
A pergunta muda de intensidade. Ela passa a significar:
Essa pergunta continua extremamente atual.
- É relativamente fácil afirmar que Jesus é o Filho de Deus quando tudo vai bem.
- Quando a oração é atendida.
- Quando a saúde permanece firme.
- Quando a família vive em paz.
- Quando os projetos prosperam.
- Quando os milagres acontecem.
Mas quem é Jesus quando o milagre não acontece? Quando a doença permanece? Quando a oração parece não ser respondida? Quando Deus permanece em silêncio? Quando a cruz chega à nossa porta?
É nesse momento que descobrimos se nossa fé estava apoiada nos dons de Deus ou no próprio Deus.
Existe uma diferença enorme entre acreditar no poder de Jesus e acreditar em Jesus.
Muitos procuram Cristo por aquilo que Ele pode oferecer. Poucos permanecem por aquilo que Ele é. Enquanto recebem graças, permanecem próximos. Quando a cruz aparece, muitos se afastam. Foi exatamente isso que aconteceu ao longo do Evangelho.
As multidões acompanhavam Jesus enquanto Ele curava. Mas poucos permaneceram ao pé da cruz.
O risco continua existindo também hoje. Podemos transformar Deus num fornecedor de respostas para os nossos problemas. Podemos aproximar-nos d'Ele apenas quando precisamos de ajuda. Podemos medir sua presença pelos milagres que recebemos.
Mas a fé cristã não nasce dos milagres. Os milagres conduzem até Cristo.
Por isso, a pergunta de Jesus continua ecoando em cada geração.
Não quem sou Eu para seus pais. Para sua comunidade. Para o sacerdote. Para os santos. Mas para você.
- Quem é Jesus quando suas certezas desmoronam?
- Quem é Jesus quando o sofrimento parece vencer?
- Quem é Jesus quando seus projetos fracassam?
- Quem é Jesus quando sua oração encontra apenas silêncio?
É nessas horas que a profissão de fé deixa de ser uma fórmula decorada e torna-se uma decisão existencial.
Talvez seja exatamente por isso que Jesus entrega a Pedro uma missão logo depois de sua profissão de fé.
Quem reconhece verdadeiramente Cristo nunca permanece apenas contemplando. Passa a viver para conduzir outros até Ele.
A profissão de fé gera responsabilidade. O encontro gera missão.
A grande pergunta deste trecho do Evangelho não é se sabemos responder corretamente à pergunta de Jesus. A verdadeira questão é outra.
Porque, no fim, não serão tuas palavras que revelarão quem é Cristo, mas:
- tuas escolhas;
- tua fidelidade;
- tua perseverança quando os milagres derem lugar à cruz.
Talvez seja justamente nesse momento que a profissão de fé de Pedro encontre seu verdadeiro significado.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com