XIX Domingo do Tempo Comum | Ano A | 09/08/2026

Tema: Fé não se prova apenas nos dias de abundância. Ela amadurece nas noites de tempestade.
Texto Bíblico: Mt 14,22-33

Ao longo dos últimos domingos, o Evangelho de São Mateus foi conduzindo os discípulos por um verdadeiro itinerário de amadurecimento da fé.

Primeiro, Jesus chamou Mateus e mostrou que o discipulado não começa na perfeição, mas no encontro. Depois ensinou que a missão nasce da compaixão. Em seguida revelou que a profissão de fé precisa tornar-se coerência de vida. Perguntou aos discípulos: “Quem sou Eu para vocês?” Depois revelou o próprio coração, manso e humilde. Mostrou que a Palavra precisa encontrar um terreno fértil. Ensinou que o Reino cresce no tempo de Deus. Revelou que Cristo é o verdadeiro Tesouro da vida. Na semana passada, vimos que quem encontrou esse Tesouro deixa de perguntar “O que Deus pode fazer por mim?” e passa a perguntar: “O que Deus pode fazer através de mim?”

Agora, o Evangelho apresenta mais um passo na formação do discípulo.

Depois de aprender a repartir os pães, ele precisará aprender a atravessar tempestades. Porque repartir o pão é importante. Mas continuar confiando quando o vento sopra contra é ainda mais difícil.

Depois da multiplicação dos pães seria natural imaginar um momento de alegria. Tudo deu certo. A multidão foi alimentada. Os discípulos participaram do milagre.

Mas Jesus faz algo surpreendente.

“Logo em seguida, obrigou os discípulos a entrar na barca…”

Mateus utiliza um verbo forte. Jesus praticamente os força a partir. Por quê?

Porque existe um enorme perigo depois das grandes experiências de Deus.

Confundir entusiasmo espiritual com maturidade espiritual.

É relativamente fácil confiar quando os pães se multiplicam. O verdadeiro discípulo, porém, é formado quando o vento muda de direção.

A fé não se prova apenas nos dias de abundância. Ela amadurece nas noites de tempestade.

Todos gostam dos milagres. Poucos aceitam a escola da confiança. E a presença de Deus não elimina todas as tempestades.

O Evangelho diz que a barca estava longe da margem. O vento era contrário. As ondas agitavam o mar.

Jesus sabia exatamente onde os discípulos estavam. Mesmo assim, não impediu a tempestade. Isso desmonta uma ideia muito comum.

Muitas pessoas acreditam que seguir Cristo significa viver protegido de todo sofrimento.

O Evangelho nunca prometeu isso. Jesus nunca disse que seus discípulos não enfrentariam ventos contrários. Prometeu outra coisa:

Nunca os deixaria sozinhos.

Há uma diferença enorme entre uma vida sem tempestades e uma vida onde Cristo está presente durante a tempestade.

  • A primeira é uma ilusão.
  • A segunda é a promessa do Evangelho.

A presença de Deus não elimina todas as lutas. Mas muda completamente a maneira de atravessá-las.

O medo muda nossa maneira de enxergar, pois quando Jesus aparece caminhando sobre as águas, os discípulos gritam:

“É um fantasma!”

Esse detalhe merece nossa atenção. A solução estava diante deles. Mas eles a confundiram com uma ameaça.

É exatamente isso que o medo faz. Ele distorce a realidade. Quando o medo governa o coração, até a presença de Deus pode parecer ausência.

  • Até o cuidado de Deus pode parecer abandono.
  • Até o silêncio de Deus pode parecer indiferença.

Quantas vezes chamamos de derrota aquilo que Deus estava transformando em crescimento?

Quantas vezes interpretamos como abandono aquilo que era apenas uma forma diferente de Deus conduzir nossa história?

O medo não apenas aumenta os problemas. Ele diminui nossa capacidade de reconhecer Deus no meio deles.

Pedro representa todos nós quando toma uma iniciativa surpreendente:

“Senhor, se és Tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas.”

Jesus responde apenas:

“Vem.”

Pedro desce da barca.

Enquanto mantém os olhos em Jesus, caminha sobre as águas. Mas o Evangelho faz questão de registrar um detalhe:

“Sentindo o vento, teve medo…”

Perceba.

O vento não começou naquele momento. Ele já estava soprando antes. O problema não foi o vento. O problema foi a mudança do olhar.

Pedro deixa de olhar para Cristo e passa a olhar para a tempestade e então começa a afundar.

Essa talvez seja uma das maiores lições da vida espiritual. Nem sempre conseguimos controlar aquilo que acontece ao nosso redor, mas sempre podemos escolher para onde dirigir o nosso olhar.

  • Quem fixa os olhos apenas nos problemas acaba afundando neles.
  • Quem mantém os olhos em Cristo descobre uma força que o medo jamais poderá oferecer.

Isso nos ensina que a fé não é ausência de medo, pois existe uma ideia muito importante neste Evangelho. Pedro sente medo, mesmo assim, saiu da barca.

Isso significa que a fé nunca foi ausência de medo. Fé é decidir que o medo não terá a última palavra.

Há pessoas que esperam o medo desaparecer para obedecer a Deus. Talvez esse dia nunca chegue. Os santos não foram pessoas sem medo. Foram pessoas que decidiram não ser governadas por ele.

O oposto da fé não é o medo. É permitir que o medo decida o rumo da nossa vida.

A mão de Cristo chega antes da queda definitiva. Justamente quando Pedro começa a afundar, grita:

“Senhor, salva-me!”

O Evangelho acrescenta uma palavra belíssima:

“Imediatamente Jesus estendeu a mão…”

Imediatamente.

Cristo não espera Pedro afundar completamente, sua graça chega antes do fracasso definitivo. Essa é uma imagem extraordinária do coração de Deus!

Nossa esperança nunca depende da perfeição da nossa fé. Depende da fidelidade de Cristo. Há momentos em que nossa fé vacila. Nossa coragem diminui. Nossa confiança enfraquece. Mas a mão de Deus continua estendida.

A graça de Deus é sempre mais rápida do que a nossa queda.

Existe um detalhe que normalmente passa despercebido. Permanecer na barca também pode ser uma ilusão.

Pedro foi o único que afundou. Mas também foi o único que caminhou sobre as águas.

Os outros discípulos permaneceram dentro da barca. Não correram riscos. Também não experimentaram o impossível. E isso nos leva a uma pergunta desconfortável.

Quantas vezes chamamos de prudência aquilo que, na verdade, é medo?

Quantas vezes preferimos permanecer onde tudo está sob nosso controle?

É claro que Pedro afundou, mas antes de afundar, caminhou. Os outros nem sequer tentaram.

Há pessoas que passam a vida inteira sem afundar porque nunca tiveram coragem de sair da barca.

Uma vida completamente segura pode ser, na verdade, uma vida onde nunca confiamos plenamente em Deus.

No final, talvez a pergunta mais importante não seja: “Por que Pedro afundou?”

Mas outra:

“O que hoje ocupa mais espaço no meu coração: o tamanho das ondas ou a presença de Cristo?”

Porque todos enfrentaremos tempestades, todos conheceremos noites escuras, todos experimentaremos momentos em que o vento parecerá contrário.

A diferença não estará na intensidade da tempestade, mas na direção do nosso olhar.

Quem vive apenas daquilo que consegue controlar jamais descobrirá aquilo que Deus é capaz de realizar através da confiança.

Talvez seja essa a grande lição deste domingo.

A fé não consiste em caminhar onde não existem ondas, mas consiste em continuar caminhando quando Cristo diz: “Coragem! Sou Eu. Não tenhais medo.”

Porque, no fim, o maior milagre deste Evangelho não é um homem caminhar sobre as águas.

O maior milagre é um discípulo descobrir que existe uma mão mais forte do que qualquer tempestade.

E essa mão continua estendida, ainda hoje, para todos aqueles que, mesmo entre ventos contrários, decidem continuar caminhando ao encontro de Cristo.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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