XV Domingo do Tempo Comum | Ano A | 12/07/2026
Texto Bíblico: Mateus 13,1-9
Ao longo dos últimos domingos, o Evangelho de Mateus vem conduzindo os discípulos por um verdadeiro caminho de amadurecimento da fé.
Primeiro, Jesus chamou Mateus (Mt 9,9-13) e nos mostrou que ninguém é chamado porque é perfeito. É o encontro com Cristo que inicia a transformação da vida.
Depois, vimos Jesus contemplando as multidões cansadas e abatidas (Mt 9,36–10,8), revelando que a missão nasce da compaixão. Antes de enviar os discípulos, Jesus os ensina a olhar as pessoas como Ele olha.
Em seguida (Mt 10,26-33), compreendemos que crer em Cristo é mais do que falar sobre Cristo. A verdadeira profissão de fé acontece quando nossas escolhas confirmam aquilo que nossos lábios proclamam.
No domingo passado (Mt 11,25-30), o próprio Jesus revelou quem Ele é. Descobrimos um Deus que não se impõe pela força, mas se apresenta como manso e humilde de coração, convidando os cansados a encontrarem descanso nele.
Agora, depois de chamar, formar, ensinar e revelar seu próprio coração, Jesus faz algo novo. Ele começa a ensinar por parábolas. E a primeira delas não fala de milagres. Não fala da cruz. Não fala dos discípulos. Fala de um semeador:
À primeira vista, parece uma história simples sobre agricultura. Mas, na verdade, Jesus está respondendo a uma pergunta que todos nós fazemos, cedo ou tarde:
O protagonista da parábola não é o terreno
Normalmente, quando ouvimos essa parábola, nossa atenção se volta imediatamente para os quatro tipos de solo. Mas existe um detalhe que frequentemente passa despercebido. O protagonista da parábola não é a terra. É o semeador.
Jesus começa dizendo: “O semeador saiu para semear.”
Perceba que o semeador não faz cálculos. Não seleciona apenas a terra boa. Não guarda a semente. Ele semeia com abundância. A semente cai no caminho. Entre as pedras. No meio dos espinhos. E também na terra boa.
Isso revela algo extraordinário sobre Deus. Ele não distribui sua graça apenas para quem parece promissor. Sua Palavra é oferecida a todos. Deus nunca é econômico em seu amor. Quem limita a ação da graça não é Deus. É o coração humano.
O verdadeiro problema não é a semente
Existe algo que todos os terrenos possuem em comum. A semente é exatamente a mesma. O semeador também. O que muda é o solo.
Isso significa que o problema nunca está na Palavra de Deus. O Evangelho continua tendo a mesma força. O que muda é a disposição do coração que a recebe. Jesus não está classificando pessoas. Está revelando estados do coração.
Os quatro terrenos
O primeiro terreno é o caminho.
A semente nem chega a penetrar.
Há corações tão endurecidos que a Palavra permanece apenas na superfície.
- Escutam, mas não acolhem;
- conhecem, mas não permitem que Deus os questione;
O segundo terreno é o pedregoso.
A Palavra é recebida com entusiasmo. Mas não cria raízes. É a fé da emoção. Enquanto tudo vai bem, permanece. Quando chegam as dificuldades, desaparece.
O terceiro terreno é o dos espinhos.
A semente cresce, mas não produz fruto. Não porque lhe falte força. Mas porque outras coisas ocupam espaço, tais como:
- As preocupações;
- A ansiedade;
- A busca desordenada por segurança;
- O desejo de possuir;
- A necessidade de controlar tudo.
O coração fica tão cheio que já não consegue frutificar.
Por fim, existe a terra boa.
Não é uma terra perfeita. É uma terra disponível. Ela acolhe. Permite que a semente penetre. Aceita ser transformada. E produz fruto.
Perceba como Mateus está construindo seu Evangelho.
- Primeiro Jesus chamou.
- Depois ensinou.
- Depois enviou.
- Depois perguntou: “Quem sou Eu para você?”
- Depois revelou seu próprio coração.
Agora faz uma pergunta diferente.
Porque conhecer Jesus não basta. Admirar Jesus não basta. Escutar Jesus não basta.
Talvez o maior erro seja imaginar que essa parábola fala apenas sobre quem aceita ou rejeita Deus.
Ela fala também sobre aquilo que fazemos com a Palavra depois de ouvi-la.
É possível participar da Missa todos os domingos e permanecer um terreno endurecido, apenas julgando os outros.
É possível conhecer profundamente a Bíblia e continuar cheio de espinhos.
É possível emocionar-se com a fé e nunca criar raízes.
A parábola desloca nossa atenção da quantidade de vezes que ouvimos a Palavra para a qualidade com que a acolhemos.
Para refletir
Talvez a grande pergunta deste Evangelho não seja: “Que tipo de terreno eu sou?”
Porque isso pode mudar ao longo da vida. A pergunta mais importante talvez seja:
Existe alguma pedra que impede o aprofundamento da fé?
Aqui entra a resistência de aceitar que você também erra.
Existe algum espinho ocupando o espaço que pertence a Deus?
O risco de defender a fé condenando outros.
Existe algum endurecimento que me impede de escutar?
Fechado nas tuas verdades, você se desumaniza.
A boa notícia é que nenhum terreno está condenado a permanecer como está.
O agricultor pode retirar as pedras. Pode arrancar os espinhos. Pode preparar a terra.
E Deus continua fazendo exatamente isso em cada um de nós.
Porque o objetivo da parábola não é descobrir qual é o nosso terreno.
É permitir que nosso coração se torne cada vez mais uma terra onde a Palavra possa criar raízes, crescer e produzir frutos abundantes.
Afinal, o semeador continua saindo todos os dias. E continua acreditando que vale a pena semear.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com