XVI Domingo do Tempo Comum | Ano A | 19/07/2026
Texto Bíblico: Mt 13,24-43
Mateus 13,24-43 dá continuidade de forma muito coerente ao caminho que São Mateus vem construindo desde o capítulo 9. Se nos últimos domingos Jesus nos mostrou quem é o discípulo, quem é Ele e como a Palavra deve ser acolhida, agora Ele responde a outra pergunta inevitável:
Esse é o grande tema do Evangelho. Há três parábolas: o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento. Mas todas desenvolvem uma mesma ideia: o Reino de Deus cresce de maneira silenciosa, paciente e muitas vezes imperceptível.
Ao longo dos últimos domingos, Mateus conduziu os discípulos por um caminho de amadurecimento.
Primeiro, Jesus chamou Mateus e mostrou que o discipulado começa com um encontro, não com a perfeição. Depois ensinou que a missão nasce da compaixão. Em seguida revelou que a profissão de fé precisa tornar-se coerência de vida. Depois perguntou: “Quem sou Eu para você?” E mostrou que a verdadeira fé permanece mesmo quando o caminho passa pela cruz.
No domingo passado, Jesus apresentou a parábola do semeador e fez uma pergunta profundamente pessoal:
Agora, depois de falar da semente e do terreno, surge uma nova inquietação.
Se Deus semeou uma boa semente, por que existe tanto joio? Os empregados perguntam ao dono do campo: “Senhor, não semeaste boa semente? De onde veio o joio?”
Essa continua sendo uma das grandes perguntas da humanidade. Se Deus é bom, por que existe tanta violência? Tanta injustiça? Tanta maldade? Tanto sofrimento?
Jesus não oferece uma explicação filosófica para a origem do mal. Ele revela algo mais decisivo:
O campo continua pertencendo ao dono. O inimigo semeia escondido. Deus continua governando. Essa esperança muda completamente a forma de olhar para a história.
Os empregados querem arrancar imediatamente o joio. É exatamente isso que nós também desejamos.
- Queremos soluções rápidas.
- Julgamentos imediatos.
- Condenações definitivas.
Mas o dono responde: “Não. Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo.”
Essa resposta revela algo impressionante sobre Deus. Sua primeira atitude diante do mal não é a pressa. É a paciência. Os impacientes são os servos, isto é, a humanidade.
A paciência de Deus não se da porque Ele é indiferente ao pecado, mas porque nunca desiste da possibilidade de conversão (Metanoia – Já falamos sobre isso no tempo do advento).
O tempo de Deus é sempre maior que o nosso. É importante observar que Jesus não diz que determinadas pessoas são, por natureza, joio. Na explicação da parábola, Ele usa imagens para falar dos que acolhem ou rejeitam o Reino, mas toda a mensagem do Evangelho aponta para a possibilidade da conversão (metanoia). E temos bons exemplos disse no Novo Testamento:
- Mateus era publicano e tornou-se apóstolo (Mt 9,9-13);
- Zaqueu passou da exploração à generosidade (Lc 19,1-10);
- Paulo de Tarso perseguiu a Igreja e tornou-se seu maior missionário (At 8,1-3; 9,1-22);
- Pedro negou Jesus e depois confirmou os irmãos na fé (Lc 22,54-62; Jo 21,15-19).
Se Deus tivesse arrancado esse “joio” antes do tempo, nunca teríamos conhecido os frutos dessas vidas.
Então, por que Deus manda esperar?
Porque nós não sabemos em que estágio da história uma pessoa se encontra. O que hoje parece apenas joio pode ser um coração que Deus ainda está trabalhando. Lembre-se, Ele é o dono da messe, nós somos os servos.
Por isso o dono do campo diz: “Deixai crescer um e outro até a colheita.” Essa frase revela menos uma técnica agrícola e mais a paciência de Deus.
Existe outra leitura muito profunda dessa parábola. Os servos acreditam saber exatamente onde está o trigo e onde está o joio. Deus, porém, não lhes entrega essa missão. O julgamento pertence ao Senhor. Esse talvez seja um dos maiores desafios da vida espiritual, pois:
- Você enxerga comportamentos. Deus conhece corações;
- Você vê o presente no qual a pessoa está. Deus conhece toda a história pela qual a pessoa passou e ainda passa.
Muitas vezes julgamos definitivamente uma pessoa que Deus ainda está transformando.
Quantas vezes nos consideramos trigo quando ainda há muito joio dentro de nós?
A parábola não é para você passar teu tempo identificando quem é trigo e quem é joio. Mas para você descobrir que o trigo e o joio também convivem dentro de você.
Em cada um de nós há sementes de generosidade e de egoísmo. De perdão e de ressentimento. De humildade e de orgulho. De fé e de desconfiança. De entrega e de resistência.
A conversão é precisamente o processo pelo qual Deus fortalece o trigo e enfraquece o joio do nosso coração.
Que joio ainda cresce no meu coração?
Ou ainda:
Em seguida, Jesus conta duas pequenas parábolas: o grão de mostarda e o fermento. Ambas respondem à mesma inquietação. O Reino normalmente cresce sem fazer barulho. Nós gostamos do extraordinário. Deus trabalha no ordinário. Nós esperamos grandes acontecimentos. Deus transforma lentamente.
O grão é quase invisível. O fermento desaparece na massa. Mas ambos possuem uma força transformadora extraordinária. O Reino de Deus não cresce pela aparência. Cresce pela fidelidade.
Uma grande lição deste Evangelho é aprender a respeitar o tempo de Deus, pois:
- Queremos pessoas prontas. Deus acompanha processos;
- Queremos resultados imediatos. Deus forma corações no decorrer da vida;
- Queremos eliminar o joio. Deus continua cultivando o trigo.
Isso vale para a Igreja. Vale para as famílias. Vale para nossa própria vida espiritual.
Somos muito impacientes com o crescimento dos outros. E frequentemente esquecemos quanto Deus continua sendo paciente conosco.
Perceba como Mateus constrói seu Evangelho:
- Cristo chamou;
- Cristo ensinou;
- Cristo revelou seu coração;
- Cristo perguntou quem Ele é para nós;
- Cristo semeou sua Palavra;
- Agora Cristo ensina a esperar.
O discipulado não consiste apenas em acolher a semente. Consiste também em confiar que Deus continua trabalhando, mesmo quando os frutos ainda não são visíveis.
Estou permitindo que Deus transforme o joio do meu coração antes de me preocupar com o campo dos outros?
O Reino de Deus não cresce pela ansiedade dos discípulos. Cresce pela paciência de um Deus que nunca deixa de cuidar do seu campo.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com