XVIII Domingo do Tempo Comum | Ano A | 02/08/2026
Texto Bíblico: Mt 14,13-21
Há perguntas que revelam a profundidade da nossa fé. Mas há frases que revelam os limites da nossa confiança.
No Evangelho deste domingo, uma pequena frase dos discípulos torna-se um espelho da condição humana:
À primeira vista, parece apenas uma constatação, mas na verdade, é uma forma de olhar para a vida.
Os discípulos não enxergam aquilo que possuem. Enxergam apenas aquilo que lhes falta. E talvez seja exatamente esse o maior obstáculo para Deus agir em nós.
A espiritualidade do “só”.
Se prestarmos atenção, perceberemos que essa palavra faz parte do nosso vocabulário diário.
- Só tenho pouco tempo;
- Só tenho poucos recursos;
- Só consigo ajudar um pouco;
- Só sei fazer isso;
- Só sou uma pessoa comum;
Quase nunca começamos por aquilo que Deus já nos confiou. Começamos pela lista daquilo que imaginamos não possuir. E, sem perceber, nossos limites deixam de ser apenas limites e transformam-se em justificativas para nossa omissão.
Há uma enorme diferença entre reconhecer um limite e esconder-se atrás dele. O limite faz parte da condição humana, já a omissão é uma escolha.
Os discípulos não erram porque possuem apenas cinco pães. Erram porque concluem que, por serem poucos, nada pode ser feito. Quantas vezes fazemos exatamente o mesmo?
- Esperamos ter mais tempo para servir;
- Mais dinheiro para ajudar;
- Mais coragem para assumir uma missão;
- Mais experiência para começar;
- Mais segurança para dar um passo.
Vivemos adiando o bem que podemos fazer hoje porque imaginamos que um dia seremos melhores. Mas o Reino de Deus nunca começou quando as pessoas se sentiram prontas. Começou quando elas decidiram confiar.
Existe um detalhe extraordinário neste Evangelho. Os discípulos apresentam seus cálculos. Jesus não discute os números. Também não critica a pobreza dos recursos. Ele simplesmente diz:
Essa frase deveria ecoar diariamente em nosso coração. Porque Deus nunca começa perguntando pelo que nos falta. Começa perguntando pelo que já colocou em nossas mãos.
Talvez seja essa uma das maiores diferenças entre a lógica humana e a lógica divina. Nós dizemos: “Quando eu tiver mais, farei mais.”
Deus responde:
Enquanto os pães permanecem nas mãos dos discípulos, continuam sendo apenas cinco pães. Quando passam para as mãos de Cristo, tornam-se alimento para milhares. Essa é a lógica da graça.
Costumamos imaginar que o milagre começou quando os pães se multiplicaram. Mas o milagre começa alguns instantes antes. Quando os discípulos deixaram de usar seus limites como argumento para permanecer imóveis.
O primeiro milagre foi a confiança. Porque toda obra de Deus começa quando alguém entrega o pouco que possui.
Antes da multiplicação dos pães houve a multiplicação da confiança. Antes da abundância do alimento houve a disponibilidade do coração. Não existe milagre sem entrega. Não existe missão sem confiança.
A possibilidade para que o grande milagre pudesse acontecer inicia quando os discípulos dizem:
É uma solução prática. Cada um cuida de si. Cada um procura seu alimento. Cada um resolve seu problema. Mas Jesus responde com uma frase constrangedora que atravessa os séculos:
É impossível ouvir essas palavras sem perceber que Jesus está formando os discípulos. Ele poderia alimentar sozinho toda aquela multidão, mas escolhe envolver aqueles homens frágeis. Porque Deus não quer apenas realizar milagres, mas deseja formar discípulos capazes de participar no acontecimento milagroso. Essa continua sendo a pedagogia do Evangelho.
Deus poderia fazer tudo sozinho, mas prefere precisar de nossas mãos. Não porque seja limitado, mas porque deseja transformar nossa vida em instrumento da sua graça. Por isso, a pergunta do Evangelho não é apenas:
A pergunta é muito mais exigente:
No domingo passado, contemplávamos um homem que encontrou um tesouro escondido. Cheio de alegria, vendeu tudo para possuí-lo. Hoje descobrimos a consequência desse encontro.
Quem encontrou Cristo deixa de perguntar: “Como Deus pode resolver meus problemas?” E começa a perguntar: “Como Deus deseja alcançar outras pessoas através da minha vida?”
Esse é o sinal da maturidade espiritual. A fé deixa de ser apenas um lugar onde recebemos e torna-se um lugar de onde transbordamos, pois:
- Quem encontrou o Pão da Vida torna-se pão para o próximo;
- Quem experimentou misericórdia aprende a oferecer misericórdia;
- Quem foi consolado torna-se consolo;
- Quem foi amado aprende a amar.
Ao olharmos para a história da salvação, percebemos um padrão que se repete:
- A viúva de Sarepta tinha um punhado de farinha;
- Os discípulos tinham cinco pães e dois peixes.
Nunca foi a abundância dos recursos que mudou a história, sempre foi a disponibilidade dos corações.
Deus nunca perguntou: “Quanto você possui?” A pergunta é outra:
Ao terminar este Evangelho, Jesus não está perguntando quanto temos. Mas porque ainda insistimos em chamar de pouco aquilo que Ele mesmo nos confiou.
Talvez o problema nunca tenha sido a escassez dos pães, talvez o problema seja a escassez da confiança. Por isso, antes de lamentarmos aquilo que nos falta, talvez devêssemos fazer uma oração muito simples:
Porque o Reino de Deus nunca começou com abundância, sempre começou com um coração disponível. E continua crescendo sempre que alguém deixa de dizer:
Para dizer:
Quando algo chega nas mãos de Cristo, deixa de ser medido pela quantidade e passa a ser medido pelo amor.
Porque Deus nunca realizou grandes obras com pessoas que tinham muito. Realizou grandes obras com pessoas que decidiram partilhar o pouco que possuíam. E é justamente aí que o milagre começa.
Para refletir:
O que voce tem para colocar nas mãos de Jesus?

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com