XXX Domingo do Tempo Comum | Ano A | 25/10/2026
Texto Bíblico: Mateus 22,34-40
Caro leitor!
No domingo passado, colocaram uma moeda nas mãos de Jesus. Ele olhou para ela e perguntou: “De quem é esta imagem?” “De César”, responderam. Então Jesus disse: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” E chegamos a uma pergunta fundamental: Se a moeda carrega a imagem de César, quem carrega a imagem de Deus? Você.
A moeda pode pertencer a César. Você não. Por isso a pergunta foi exatamente esta: A quem você pertence? Agora Jesus dá mais um passo. Se você pertence a Deus, como essa pertença se torna visível? A resposta é surpreendentemente simples: amando.
Os fariseus haviam tentado apanhar Jesus na questão do imposto. Agora os fariseus se reúnem novamente, e um doutor da Lei pergunta:
Mais uma vez, a pergunta é apresentada como prova. Mas Jesus não entra numa disputa interminável sobre regras. Ele vai ao centro:
E acrescenta:
Jesus não inventa dois novos mandamentos. Ele une duas passagens que seus ouvintes conheciam: Deuteronômio 6,5, sobre o amor a Deus, e Levítico 19,18, sobre o amor ao próximo. E conclui: “Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.”
Querem saber qual é a regra mais importante. Mas Jesus responde mostrando algo anterior às regras: O amor.
A religião possui mandamentos, doutrinas, moral, normas, ritos e tradições. Tudo isso tem seu lugar. Mas Jesus coloca diante de nós um critério para verificar o sentido de tudo isso: isso está nos ensinando a amar?
Existe um risco religioso muito sutil: você pode se tornar especialista nas coisas de Deus sem se tornar parecido com Deus. Pode conhecer os mandamentos e tratar pessoas com crueldade. Defender a verdade e utilizá-la para humilhar. Participar da missa e alimentar ressentimentos durante anos. Falar sobre família e não saber pedir perdão dentro de casa. Defender a vida e tratar determinadas vidas como se possuíssem menos dignidade. Conhecer a doutrina sobre Deus e não reconhecer Deus naquele que está diante de você.
Porque, se depois de tantos anos de religião você se tornou mais duro, mais intolerante, mais arrogante e menos capaz de misericórdia, alguma coisa precisa ser revista. Pois a fé que te aproxima de Deus deveria também te tornar mais humano.
Jesus não diz simplesmente: “Ame a Deus.” Ele acrescenta: “De todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.” A palavra decisiva é todo. Não apenas uma parte. Não somente aos domingos, nos momentos de oração ou quando precisa de alguma coisa.
Essa afirmação dá continuidade ao Evangelho anterior, quando nos perguntávamos: “O que ainda não devolvi a Deus, embora sempre tenha pertencido a Ele?”
Agora Jesus aprofunda a resposta: se você pertence a Deus, não pode oferecer-lhe apenas um compartimento da sua existência.
Não importa em que momento da vida você decidiu responder ao seu chamado, nem quantas imperfeições e contradições ainda carrega. Deus não espera que você resolva todas as suas dificuldades para acolhê-lo. Ele o recebe com sua história, suas fragilidades e suas feridas.
Deus não exige uma vida perfeita para começar a amá-lo. Apenas espera que seu amor alcance todas as dimensões da sua vida.
Isso significa que Deus não quer ocupar um espaço na sua vida. Quer reorganizar a vida inteira.
Algumas pessoas imaginam a vida como uma casa com muitos cômodos. Existe o trabalho, a família, o dinheiro, os amigos, o lazer, a sexualidade e os projetos. E existe também um pequeno quarto chamado: “Deus.” Onde entram quando rezam, quando vão à missa, ou precisam de ajuda. Mas depois fecham a porta e continuam vivendo nos outros cômodos segundo critérios completamente diferentes.
Jesus desmonta essa divisão ao dizer: “De todo o coração.” “De toda a alma.” “De todo o entendimento.” Deus não quer apenas um cômodo. Quer atravessar a casa inteira. Mas atenção isso não significa transformar cada momento em prática religiosa. Pois aí o risco é se tornar fundamentalista. O que Jesus está falando é que você precisa permitir que sua relação com Deus dê sentido e direção às outras relações.
Jesus poderia ter parado aí, pois perguntaram apenas qual era o maior mandamento. Mas Ele acrescenta: “O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Mas por que acrescentar um segundo se perguntaram apenas pelo primeiro?
A resposta é bem simples. Jesus sabe que somos capazes de dizer que amamos a Deus, enquanto encontramos inúmeras razões para não amar pessoas.
Jesus acrescenta o segundo mandamento, porque sabe que é relativamente fácil amar uma ideia abstrata, mas difícil é amar uma pessoa real. Deus não ocupa seu lugar no estacionamento, mas o próximo ocupa. Deus não interrompe você numa hora inconveniente, o próximo interrompe. Por isso Jesus aproxima os dois mandamentos de tal maneira que não podemos separá-los.
Claro que você vai dizer: “Eu amo Deus.” Mas como verificar se isso é verdade? Jesus apresenta a maneira empírica colocando alguém ao teu lado. Por isso que a palavra é justamente: próximo. Ele não diz apenas: “ame a humanidade.” Pois a humanidade é muito fácil de amar. Ela é abstrata. O próximo tem rosto. Tem nome. Tem história. E na maioria das vezes te irrita.
Pode sofrer pelos pobres do outro lado do mundo e tratar mal quem trabalha com você. Pode defender grandes causas e humilhar alguém dentro de casa. Pode falar sobre acolhimento e não acolher uma pessoa concreta. Pode desejar paz para o mundo e alimentar uma guerra dentro da família. E Jesus no seu falar nos retira dessas abstrações. Pois o amor para ser cristão, precisa de um rosto.
Mas atenção. Amar não significa gostar de todo mundo. Aqui precisamos fazer uma distinção importante. Jesus manda amar. Não manda sentir simpatia por todos.
Amor cristão não é uma emoção permanente. Não é gostar da personalidade de todas as pessoas. Não significa concordar com todos. Não significa permitir abuso. Não significa abolir limites. Não significa permanecer em relações destrutivas. Não significa fingir que aquilo que aconteceu não aconteceu.
Jesus ainda acrescenta uma expressão que muitas vezes passa despercebida: “como a ti mesmo.”
Isso significa que existe uma terceira relação escondida dentro dos dois grandes mandamentos: Deus, o próximo e você.
Aqui surge uma pergunta: “preciso primeiro aprender a me amar perfeitamente para depois amar os outros?”
Não necessariamente. Mas Jesus reconhece algo fundamental: a maneira que você se relaciona com você influencia profundamente a maneira como você se relaciona com os outros.
- Quem vive numa guerra permanente consigo mesmo, frequentemente leva essa guerra para suas relações.
- Quem não suporta a própria fragilidade costuma ter pouca paciência com a fragilidade dos outros.
- Quem precisa ser perfeito pode tornar-se cruel diante do erro alheio.
- Quem não consegue perdoar a própria história pode exigir que os outros paguem indefinidamente pelos próprios erros.
Muitas vezes aquilo que você mais condena nos outros toca exatamente aquilo que ainda não conseguiu reconciliar em você mesmo.
A palavra “amor” tornou-se tão utilizada que corre o risco de significar qualquer coisa. “Eu amo.” “Faço por amor.” “Foi porque eu amo.”
Mas nem tudo aquilo que você chama de amor é amor. Pois o controle pode vestir-se de amor. Ciúme pode apresentar-se como amor. Posse pode chamar-se amor. Dependência pode chamar-se amor. Medo de perder pode chamar-se amor. Necessidade de aprovação pode chamar-se amor.
É preciso observar não apenas aquilo que se sente, mas aquilo que teu “amor” produz.
Às vezes amar significa aproximar-se. Outras vezes significa permitir que o outro cresça sem o teu controle.
Jesus termina com uma imagem muito forte:
Toda a estrutura religiosa encontra nesses dois mandamentos seu ponto de sustentação. Imagine uma porta sustentada por duas dobradiças. Retire uma e a porta já não funciona adequadamente.
Amor a Deus sem amor ao próximo produz uma espiritualidade deformada. Amor ao próximo desconectado de Deus pode perder a referência da dignidade que não depende de simpatia, utilidade ou merecimento. Jesus mantém os dois juntos. Não é possível escolher qual deles é mais conveniente praticar.
Jesus mais uma vez deixa uma pergunta:
É preciso se perguntar se sua presença torna a vida das pessoas mais leve ou mais pesada, se aqueles que convivem com você se sentem acolhidos ou precisam constantemente se defender de você. Será que você sabe escutar e pedir perdão? Consegue discordar sem destruir, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem alimentar o ódio? É capaz de se alegrar sinceramente com o bem que acontece ao outro e de fazer o bem mesmo quando ninguém está olhando? E, acima de tudo, sua fé está tornando você mais humano? Porque você pode conhecer muitos mandamentos, cumprir inúmeras obrigações religiosas e, ainda assim, fracassar justamente naquele do qual todos os outros dependem: o amor.
Depois de tantos domingos, o caminho parece estar chegando a uma síntese. Quem é Jesus? Que frutos está produzindo? A quem você pertence? O encontro com Deus está transformando você? Que imagem você carrega? Agora Jesus coloca tudo isso numa única palavra: ame.
Porque no final, Deus não vai lhe perguntar a quantidade de coisas religiosas que você fez. Não! Não será essa a pergunta.
Você terá que mostrar o que tua presença produziu na vida das pessoas que Deus colocou ao teu lado.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com