XXXI Domingo do Tempo Comum | Ano A | 01/11/2026
Texto Bíblico: Mt 23,1-12
Caro leitor!
Nos últimos domingos, Jesus tem nos conduzido por um caminho que exige cada vez mais de nós. Começamos perguntando quem Ele é. Depois descobrimos que reconhecê-lo como Cristo não significa necessariamente aceitar a maneira como Ele escolheu viver. Entramos na vinha e compreendemos que não basta dizer que pertencemos a Deus: é preciso produzir frutos. Fomos convidados para um banquete e percebemos que o encontro com Deus precisa transformar nossa maneira de viver.
Em seguida, Jesus tomou uma moeda e perguntou: “De quem é esta imagem?” A moeda carregava a imagem de César. Nós carregamos a imagem de Deus. E, no domingo passado, Jesus nos mostrou como essa imagem se torna reconhecível: através do amor. Não de um amor abstrato, feito de sentimentos e boas intenções, mas de um amor que se manifesta concretamente na maneira como tratamos as pessoas.
Agora, Jesus nos coloca diante de uma questão ainda mais desconfortável: é possível conhecer tudo isso, ensinar tudo isso, defender tudo isso e, mesmo assim, não viver nada disso?
O Evangelho deste domingo começa com uma afirmação contundente:
Jesus não começa questionando o conhecimento religioso dessas pessoas. Tampouco afirma que tudo aquilo que ensinam está errado. Sua crítica é dirigida à distância que existe entre o conteúdo de seus ensinamentos e a maneira como conduzem a própria vida.
Aqui encontra-se uma das maiores dificuldades da experiência religiosa: você pode se tornar profundamente familiarizado com as coisas de Deus sem se tornar verdadeiramente parecido com Ele.
Você pode conhecer os mandamentos e tratar as pessoas com crueldade. Pode defender a verdade e utilizá-la para humilhar. Pode conhecer profundamente a doutrina sobre Deus e não reconhecer a dignidade de Deus naquele que está diante de você.
O risco não é apenas desconhecer o Evangelho. É conhecê-lo tão bem que você começa a acreditar que só conhecê-lo significa vivê-lo.
Existe uma diferença entre possuir uma verdade e permitir que essa verdade transforme sua vida. Você pode ser capaz de explicar o perdão sem jamais ter perdoado. Pode fazer uma bela reflexão sobre humildade enquanto alimenta uma necessidade permanente de reconhecimento. Pode ensinar sobre generosidade e continuar organizando suas relações a partir daquilo que espera receber.
Jesus continua sua denúncia dizendo que aqueles líderes religiosos amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas não estão dispostos a movê-los sequer com um dedo. Essa imagem é extraordinariamente atual.
Existem pessoas que parecem possuir uma facilidade impressionante para identificar os erros dos outros. Sabem exatamente o que alguém deveria fazer, como deveria agir, o que deveria abandonar e quais comportamentos precisa modificar. Entretanto, quando encontram alguém que realmente está tentando mudar, oferecem mais cobranças do que ajuda.
Imagine alguém que procura a Igreja depois de muitos anos afastado. Talvez carregue uma história difícil, tenha cometido erros, esteja enfrentando problemas familiares ou simplesmente tenha chegado ao limite de suas próprias forças. Essa pessoa sabe que sua vida precisa mudar. Talvez tenha levado anos para reunir coragem e procurar ajuda.
A pergunta é: ela encontrará alguém disposto a ajudá-la a caminhar ou apenas alguém preparado para enumerar tudo aquilo que fez de errado?
É importante compreender que Jesus não está propondo uma religião sem exigências. O Evangelho não deixa de apresentar caminhos difíceis. Amar exige renúncias. Perdoar exige maturidade. Reconciliar-se exige coragem. Mudar de vida exige enfrentar aquilo que muitas vezes preferimos esconder. Mas existe uma diferença fundamental entre apresentar um caminho exigente e abandonar alguém diante da dificuldade de percorrê-lo.
Uma coisa é dizer a alguém que precisa mudar. Outra, muito diferente, é estar disposto a ajudá-lo durante o processo de mudança. É relativamente fácil apontar o caminho quando não precisamos caminhar ao lado de quem está enfrentando dificuldades.
Algumas pessoas se afastam da experiência religiosa não porque rejeitaram Deus, mas porque encontraram pessoas que falavam muito sobre Ele e demonstravam pouca disposição para ajudá-las a encontrá-lo. Isso deveria nos fazer pensar.
Porque uma comunidade cristã não pode transformar-se em um lugar onde as pessoas precisam esconder suas fragilidades para serem acolhidas.
Se alguém precisa parecer perfeito para encontrar lugar entre nós, talvez estejamos oferecendo exatamente aquilo que Jesus veio questionar.
Mas o Evangelho avança. Jesus denuncia outra característica daqueles líderes: “Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros.”
Aqui encontramos uma dimensão profundamente humana e psicologicamente complexa. Todos nós precisamos, em alguma medida, de reconhecimento. Desejamos que nossos esforços sejam percebidos, que nosso trabalho tenha valor e que as pessoas reconheçam aquilo que fazemos. Isso, por si só, não constitui um problema.
A dificuldade começa quando o reconhecimento deixa de ser uma consequência daquilo que fazemos e passa a ser a principal razão pela qual fazemos.
Uma coisa é sentir alegria porque seu trabalho foi reconhecido. Outra é depender desse reconhecimento para continuar trabalhando.
Jesus menciona pessoas que ampliavam os sinais religiosos de suas vestes, procuravam os primeiros lugares nos banquetes, desejavam os assentos de honra nas sinagogas e apreciavam ser cumprimentadas publicamente com títulos importantes.
Os sinais religiosos não eram necessariamente o problema. O problema estava na finalidade que passaram a desempenhar. Aquilo que deveria recordar a presença de Deus havia se transformado em instrumento de valorização pessoal. E aqui aparece uma das tentações mais sutis da vida religiosa: utilizar as coisas de Deus para alimentar a imagem que desejamos construir de nós mesmos.
O risco de aparentar ser “santo”, não porque acredita na santidade, mas porque precisa sentir-se importante. Defende que tudo seja feito para a glória de Deus, mas fica profundamente ofendido quando seu nome não aparece nos agradecimentos.
Não é uma pergunta fácil. Porque nossas motivações raramente são inteiramente puras. Mas reconhecer essas contradições não significa que todo o nosso serviço seja falso. Significa apenas que também nossas motivações precisam ser transformadas.
A maturidade espiritual não consiste em nunca experimentar vaidade, mas em não permitir que ela determine a finalidade daquilo que fazemos.
O problema começa quando nossa necessidade de reconhecimento se torna tão grande que as pessoas deixam de ser a razão do nosso serviço e passam a ser instrumentos para confirmar nossa importância. Quando isso acontece, já não estamos verdadeiramente servindo. Estamos utilizando o serviço para alimentar uma imagem de nós mesmos.
Lembra-se da parábola dos vinhateiros, refletida há alguns domingos? O proprietário confiou sua vinha aos trabalhadores, mas eles começaram a agir como se fossem os donos. Quando o proprietário enviou seus empregados para receber os frutos, foram rejeitados. Quando enviou seu filho, decidiram eliminá-lo para ficar com a herança.
É possível trabalhar pelas coisas de Deus e, ao mesmo tempo, comportar-se como se elas nos pertencessem.
Agora Jesus denuncia uma deformação semelhante. Pessoas que receberam uma responsabilidade religiosa podem começar a agir como se essa responsabilidade lhes conferisse direitos sobre aquilo que receberam para cuidar.
Isso vale para as relações familiares, profissionais e pessoais. Quantas vezes confundimos responsabilidade com controle? Quantas vezes acreditamos que, porque ajudamos alguém, adquirimos o direito de determinar suas escolhas? Quantas vezes transformamos nossa dedicação em uma espécie de dívida que o outro deverá pagar com obediência, gratidão ou reconhecimento?
Nem sempre o desejo de controlar nasce de uma intenção consciente de dominar. Às vezes nasce do medo de perder importância, de deixar de ser necessário ou de descobrir que as pessoas podem continuar caminhando sem nossa presença.
Quando sua identidade depende de ser indispensável, o crescimento do outro pode começar a parecer uma ameaça.
É nesse contexto que Jesus faz uma afirmação extraordinária: “Vós sois todos irmãos.”
Não sei você, mas eu tenho presenciado que os cristãos têm se esquecido dessa fala do bom mestre.
Jesus não está negando que existam funções diferentes, responsabilidades distintas ou autoridades legitimamente constituídas. Está recordando que nenhuma dessas diferenças altera a dignidade fundamental que nos une.
Podemos exercer funções diferentes, possuir formações diferentes, assumir responsabilidades diferentes e ter experiências diferentes. Mas nenhuma dessas diferenças torna uma pessoa mais digna do que outra.
A vida pode nos confiar responsabilidades diferentes, mas nenhuma delas estabelece categorias distintas de dignidade humana.
O sacerdote não possui maior dignidade porque foi ordenado. Um casal que vive sua primeira união não possui maior dignidade humana do que um casal que vive uma nova união, ainda que suas situações matrimoniais sejam distintas diante da Igreja. Aquele que chegou à vinha às cinco da tarde não possui menos valor do que aquele que começou a trabalhar às nove da manhã.
Lembra-se? Refletimos sobre isso há alguns domingos. Deus pode reconhecer a diferença entre nossas histórias, escolhas e responsabilidades sem estabelecer diferenças no valor de nossas vidas.
A autoridade pode estabelecer responsabilidades diferentes, mas nunca autoriza alguém a tratar o outro como se possuísse menor valor.
Perceba como esse Evangelho retoma aquilo que Jesus nos ensinou nos domingos anteriores.
Quando mostrou a moeda de César, Jesus nos recordou que carregamos a imagem de Deus. Quando apresentou o maior mandamento, ensinou que essa imagem precisa tornar-se visível através do amor.
Agora Ele nos faz compreender que ninguém pode utilizar uma posição, religiosa ou civil, para diminuir a imagem de Deus presente em outra pessoa.
Não existe autoridade verdadeiramente cristã quando o exercício do poder exige que alguém seja diminuído para que outro se sinta maior.
E então Jesus apresenta uma inversão radical: “O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve.”
Estamos acostumados a associar grandeza à capacidade de ocupar posições elevadas.
- Quanto maior o cargo, maior a importância.
- Quanto mais reconhecimento recebemos, maior parece ser nosso sucesso.
- Quanto mais pessoas dependem de nós, maior imaginamos ser nosso poder.
Jesus apresenta outro critério. Ele não afirma que ninguém pode ser grande. Ele redefine a grandeza.
Entretanto, é importante evitar uma interpretação equivocada. Servir não significa aceitar qualquer exigência. Não significa permitir exploração, abandonar a própria dignidade ou viver sem limites.
A humildade cristã não consiste em acreditar que você não possui valor. Uma pessoa humilde pode reconhecer suas capacidades, exercer autoridade, tomar decisões difíceis, corrigir comportamentos inadequados e estabelecer limites necessários. A diferença está na maneira como faz tudo isso.
Quem é verdadeiramente humilde não precisa humilhar ninguém para confirmar sua posição.
E aqui eu percebo uma das grandes dificuldades humanas dos dias atuais: queremos ser reconhecidos pelo que fazemos, mas frequentemente confundimos reconhecimento com superioridade.
Não nos basta realizar algo bom. Queremos que percebam que fomos nós. Não nos basta contribuir. Queremos que nossa contribuição seja considerada indispensável. Não nos basta ocupar um lugar. Queremos ter certeza de que ninguém poderá ocupá-lo tão bem quanto nós. E, quando outra pessoa cresce, em vez de nos alegrarmos, podemos experimentar a sensação de que estamos perdendo alguma coisa.
Mas por que isso acontece?
Porque você ainda tenta construir sua identidade a partir da comparação.
Quem precisa ser maior do que os outros para sentir-se importante nunca encontrará tranquilidade. Sempre haverá alguém mais preparado, mais reconhecido, mais admirado ou mais bem-sucedido. E a vida se transformará numa competição interminável.
O Evangelho oferece outra possibilidade: descobrir que você pode possuir valor sem precisar disputar o valor dos outros. Você pode reconhecer suas capacidades sem transformá-las em motivo de superioridade. Pode alegrar-se com o crescimento de alguém sem interpretar isso como uma ameaça. Pode deixar uma responsabilidade sem acreditar que sua história perdeu importância.
Essa é sem dúvida uma das maiores libertações que a fé pode produzir em nós. Pois, quando deixamos de precisar demonstrar constantemente nossa importância, encontramos mais liberdade para servir.
Você não precisa transformar cada atividade numa oportunidade de reconhecimento. Já não precisa disputar todos os espaços. Já não precisa controlar tudo para garantir que continuará sendo necessário. Pode simplesmente fazer o bem.
No domingo passado, Jesus nos ensinou que toda a Lei e os Profetas encontram seu fundamento no amor a Deus e ao próximo. Hoje, Ele nos coloca diante de uma contradição profundamente humana: é possível defender o amor com as palavras e negá-lo com a própria maneira de viver.
Você pode acreditar sinceramente no amor e, ainda assim, tratar as pessoas com arrogância. Pode falar sobre humildade e exigir privilégios. Pode rezar inúmeras vezes ao longo do dia, dirigindo-se a Deus como “Pai nosso”, enquanto despreza aqueles que pensam, acreditam ou vivem de maneira diferente de você.
Mas existe uma contradição que não podemos ignorar: como reconhecer Deus como Pai de todos e, ao mesmo tempo, recusar-se a reconhecer como irmão aquele que também é filho dele?
O problema não está na quantidade de vezes que chamamos Deus de Pai, mas na dificuldade de aceitar todas as consequências de sermos seus filhos. Porque não podemos escolher quem merece ser nosso irmão depois de termos escolhido chamar Deus de Pai.
Por isso, a pergunta deste domingo é particularmente desconfortável:
O amor não aparece apenas na maneira como você trata aqueles que admira, mas principalmente na maneira como você trata aqueles que não admira. Pois aquilo que você mostra aos outros corresponde àquilo que você realmente é? Essa é uma das perguntas mais difíceis da vida espiritual.
Você pode passar anos construindo uma imagem religiosa. Uma imagem de pessoa correta, generosa, humilde, comprometida e profundamente dedicada às coisas de Deus. Basicamente uma imagem de um “santo(a)”, mas existe uma diferença entre construir uma imagem e permitir que Deus transforme a tua real identidade.
O maior perigo humano não é enganar os outros sobre quem você é. O maior perigo é acreditar tanto na imagem que construiu e deixar de perceber a distância entre ela e aquilo que realmente vive.
No final, Deus não vai te perguntar quantas pessoas reconheceram tua importância, quantos títulos recebeu ou quantos lugares de destaque ocupou.
Você pode passar uma vida inteira tentando demonstrar que pertence a Deus.
Mas aquilo que realmente revelará sua pertença não será a imagem religiosa que conseguiu construir diante dos outros.
Será a maneira como sua presença permitiu que a imagem de Deus também fosse reconhecida na vida daqueles que estiveram ao seu lado.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com