X Domingo do Tempo Comum | Ano A | 07/06/2026
Texto Bíblico: Mt 9,9-13
O Evangelho deste domingo nos apresenta uma das cenas mais provocativas de todo o ministério de Jesus. Somos conduzidos ao chamado de Mateus, o cobrador de impostos.
À primeira vista, a narrativa parece simples. Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria de impostos e lhe diz apenas duas palavras: “Segue-me.”
Mateus se levanta e o segue.
Mas, por trás dessa simplicidade, existe uma profunda revelação sobre a maneira como Deus age na vida humana.
Ao longo dos últimos domingos, o Evangelho foi construindo, passo a passo, o retrato do discípulo e do Reino de Deus. Antes de qualquer missão, Jesus revela uma verdade fundamental: a identidade precede a missão. Somos, antes de tudo, filhos amados de Deus.
Na Solenidade da Santíssima Trindade (Mt 6,24-34), fomos convidados a reconhecer que aquilo a que nos unimos molda aquilo que nos tornamos. A comunhão com Deus transforma gradualmente nossa maneira de pensar, sentir e agir.
É justamente depois de todo esse percurso que surge o Evangelho do chamado de Mateus (Mt 9,9-13). Depois de mostrar o que é o Reino, quem é o discípulo e como se vive o Evangelho, Mateus responde uma pergunta inevitável: Quem é digno de entrar nesse caminho?
A resposta de Jesus surpreende: “Misericórdia eu quero, e não sacrifício.”
O Reino não começa no mérito. Começa no encontro. Primeiro Cristo passa. Depois chama. Depois a pessoa se levanta. E só então a vida começa a mudar. Não é a perfeição que nos aproxima de Deus; é a proximidade de Deus que inicia a nossa transformação.
Depois de tantas exigências, seria natural imaginar que Jesus começaria a reunir ao seu redor apenas os mais virtuosos, os mais preparados ou os mais santos. Mas acontece exatamente o contrário.
Jesus chama Mateus. Um publicano. Um homem considerado impuro pela sociedade religiosa de sua época. Alguém que carregava sobre si o peso da rejeição, da suspeita e da condenação pública. É quase um choque narrativo.
Mateus, ao escrever seu Evangelho, não esconde sua própria história. Pelo contrário, posiciona o relato de seu chamado exatamente depois dessa grande apresentação do Reino para revelar uma verdade fundamental: o Evangelho não é um prêmio destinado aos perfeitos.
O Reino de Deus é um caminho oferecido àqueles que aceitam levantar-se e seguir. Essa é uma das maiores diferenças entre a lógica humana e a lógica divina.
Frequentemente pensamos que primeiro precisamos mudar para depois nos aproximarmos de Deus. Primeiro corrigir os defeitos. Primeiro vencer os pecados. Primeiro organizar a vida. Somente então nos consideraríamos dignos de estar diante do Senhor.
Jesus rompe completamente essa mentalidade. Ele não espera Mateus tornar-se discípulo para chamá-lo. Ele o chama justamente quando ainda está sentado na coletoria. Onde ainda está:
- no lugar de sua antiga vida;
- carregando sua história;
- marcado por suas contradições.
O encontro vem antes da transformação.
Por isso, logo após o chamado, Jesus se senta à mesa com publicanos e pecadores. A reação dos fariseus é imediata. Eles não conseguem compreender como alguém que se apresenta como enviado de Deus pode conviver tão livremente com pessoas consideradas indignas.
A resposta de Jesus continua ecoando pelos séculos: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.”
E logo acrescenta: “Misericórdia eu quero, e não sacrifício.”
Essas palavras não são uma crítica à religião em si, mas a uma religião que perdeu sua finalidade.
Quando a prática religiosa deixa de aproximar as pessoas de Deus e passa a funcionar como instrumento de exclusão, ela se distancia do coração do Evangelho.
Jesus revela que a misericórdia não é um detalhe secundário da fé. Ela é sua expressão mais autêntica.
O problema dos fariseus não era a falta de conhecimento religioso. Eles conheciam as Escrituras. Conheciam as leis. Conheciam as tradições. O problema era que já não conseguiam enxergar as pessoas.
Sabiam identificar pecadores, mas haviam desaprendido a reconhecer filhos. E talvez aqui esteja uma das provocações mais importantes deste Evangelho para os nossos dias.
Ainda hoje existe a tentação de transformar a fé em um sistema de classificação moral. Criamos categorias. Definimos quem merece e quem não merece. Determinamos quem está próximo e quem está distante de Deus.
Jesus faz exatamente o contrário. Ele atravessa as barreiras. Aproxima-se. Senta-se à mesa. Escuta. Chama. Porque o Reino anunciado desde o início do Evangelho não nasce do mérito humano.
Nasce do encontro com Cristo. Primeiro Cristo passa. Depois Ele chama. Depois a pessoa se levanta. E somente então a vida começa a mudar.
Essa dinâmica continua acontecendo em cada experiência autêntica de fé. Nenhum de nós chega a Deus completamente pronto. Nenhum de nós se torna digno por suas próprias forças.
Todos somos chamados no meio do caminho, carregando limites, feridas, dúvidas e pecados.
O que transforma a existência não é a perfeição alcançada antes do encontro. É o encontro que inicia a transformação.
Por isso o chamado de Mateus é, ao mesmo tempo, a sua história e a nossa.
Porque em algum momento da vida, Cristo também passa diante de cada um de nós.
E a pergunta decisiva não é se somos perfeitos.
A pergunta é se teremos coragem de nos levantar e segui-Lo.

Autor: Pe. Adriano da Levedove
Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com