X Domingo do Tempo Comum | Ano A | 07/06/2026

Tema: Primeiro Cristo passa, depois a vida muda
Texto Bíblico: Mt 9,9-13

O Evangelho deste domingo nos apresenta uma das cenas mais provocativas de todo o ministério de Jesus. Somos conduzidos ao chamado de Mateus, o cobrador de impostos.

À primeira vista, a narrativa parece simples. Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria de impostos e lhe diz apenas duas palavras: “Segue-me.”

Mateus se levanta e o segue.

Mas, por trás dessa simplicidade, existe uma profunda revelação sobre a maneira como Deus age na vida humana.

Ao longo dos últimos domingos, o Evangelho foi construindo, passo a passo, o retrato do discípulo e do Reino de Deus. Antes de qualquer missão, Jesus revela uma verdade fundamental: a identidade precede a missão. Somos, antes de tudo, filhos amados de Deus.

No II Domingo do Tempo Comum (Jo 1,29-34), contemplamos que Jesus não fiscaliza, Ele ama. Seu olhar não procura condenar, mas revelar a dignidade que muitas vezes esquecemos possuir.

No III Domingo (Mt 4,12-23), percebemos que Jesus não reage, Ele redireciona sua missão. Diante das adversidades, Ele não se deixa determinar pelas circunstâncias, mas permanece fiel ao propósito do Pai.

No IV Domingo (Mt 5,1-12a), aprendemos que compaixão não é sentimento passageiro; é coragem de interromper o próprio caminho para encontrar o outro.

No V Domingo (Mt 5,13-16), Jesus nos alerta sobre a fragilidade interior que frequentemente alimenta a rigidez exterior, recordando que a luz do Evangelho nasce de um coração transformado.

No VI Domingo (Mt 5,17-37), a pergunta se torna pessoal: o que você está alimentando em seu coração? Porque a vida exterior é sempre reflexo daquilo que cultivamos interiormente.

Na Solenidade da Ascensão (Mt 28,16-20), compreendemos que a vida colocou os discípulos diante de Jesus, mas Jesus os colocou diante da vida. O encontro com Cristo nunca termina em si mesmo; ele se transforma em missão.

Em Pentecostes, refletimos sobre a presença de Deus no meio do caos, capaz de atravessar medos, portas fechadas e incertezas para gerar uma vida nova.

Na Solenidade da Santíssima Trindade (Mt 6,24-34), fomos convidados a reconhecer que aquilo a que nos unimos molda aquilo que nos tornamos. A comunhão com Deus transforma gradualmente nossa maneira de pensar, sentir e agir.

É justamente depois de todo esse percurso que surge o Evangelho do chamado de Mateus (Mt 9,9-13). Depois de mostrar o que é o Reino, quem é o discípulo e como se vive o Evangelho, Mateus responde uma pergunta inevitável: Quem é digno de entrar nesse caminho?

“Misericórdia eu quero, e não sacrifício.”

A resposta de Jesus surpreende: “Misericórdia eu quero, e não sacrifício.”

O Reino não começa no mérito. Começa no encontro. Primeiro Cristo passa. Depois chama. Depois a pessoa se levanta. E só então a vida começa a mudar. Não é a perfeição que nos aproxima de Deus; é a proximidade de Deus que inicia a nossa transformação.

Depois de tantas exigências, seria natural imaginar que Jesus começaria a reunir ao seu redor apenas os mais virtuosos, os mais preparados ou os mais santos. Mas acontece exatamente o contrário.

Jesus chama Mateus. Um publicano. Um homem considerado impuro pela sociedade religiosa de sua época. Alguém que carregava sobre si o peso da rejeição, da suspeita e da condenação pública. É quase um choque narrativo.

Mateus, ao escrever seu Evangelho, não esconde sua própria história. Pelo contrário, posiciona o relato de seu chamado exatamente depois dessa grande apresentação do Reino para revelar uma verdade fundamental: o Evangelho não é um prêmio destinado aos perfeitos.

O Reino de Deus é um caminho oferecido àqueles que aceitam levantar-se e seguir. Essa é uma das maiores diferenças entre a lógica humana e a lógica divina.

Frequentemente pensamos que primeiro precisamos mudar para depois nos aproximarmos de Deus. Primeiro corrigir os defeitos. Primeiro vencer os pecados. Primeiro organizar a vida. Somente então nos consideraríamos dignos de estar diante do Senhor.

Jesus rompe completamente essa mentalidade. Ele não espera Mateus tornar-se discípulo para chamá-lo. Ele o chama justamente quando ainda está sentado na coletoria. Onde ainda está:

  • no lugar de sua antiga vida;
  • carregando sua história;
  • marcado por suas contradições.

O encontro vem antes da transformação.

Por isso, logo após o chamado, Jesus se senta à mesa com publicanos e pecadores. A reação dos fariseus é imediata. Eles não conseguem compreender como alguém que se apresenta como enviado de Deus pode conviver tão livremente com pessoas consideradas indignas.

A resposta de Jesus continua ecoando pelos séculos: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.”

E logo acrescenta: “Misericórdia eu quero, e não sacrifício.”

Essas palavras não são uma crítica à religião em si, mas a uma religião que perdeu sua finalidade.

Quando a prática religiosa deixa de aproximar as pessoas de Deus e passa a funcionar como instrumento de exclusão, ela se distancia do coração do Evangelho.

Jesus revela que a misericórdia não é um detalhe secundário da fé. Ela é sua expressão mais autêntica.

O problema dos fariseus não era a falta de conhecimento religioso. Eles conheciam as Escrituras. Conheciam as leis. Conheciam as tradições. O problema era que já não conseguiam enxergar as pessoas.

Sabiam identificar pecadores, mas haviam desaprendido a reconhecer filhos. E talvez aqui esteja uma das provocações mais importantes deste Evangelho para os nossos dias.

Ainda hoje existe a tentação de transformar a fé em um sistema de classificação moral. Criamos categorias. Definimos quem merece e quem não merece. Determinamos quem está próximo e quem está distante de Deus.

Jesus faz exatamente o contrário. Ele atravessa as barreiras. Aproxima-se. Senta-se à mesa. Escuta. Chama. Porque o Reino anunciado desde o início do Evangelho não nasce do mérito humano.

Nasce do encontro com Cristo. Primeiro Cristo passa. Depois Ele chama. Depois a pessoa se levanta. E somente então a vida começa a mudar.

Primeiro Cristo passa. Depois Ele chama. Depois a pessoa se levanta. E somente então a vida começa a mudar.

Essa dinâmica continua acontecendo em cada experiência autêntica de fé. Nenhum de nós chega a Deus completamente pronto. Nenhum de nós se torna digno por suas próprias forças.

Todos somos chamados no meio do caminho, carregando limites, feridas, dúvidas e pecados.

O que transforma a existência não é a perfeição alcançada antes do encontro. É o encontro que inicia a transformação.

Por isso o chamado de Mateus é, ao mesmo tempo, a sua história e a nossa.

Porque em algum momento da vida, Cristo também passa diante de cada um de nós.

E a pergunta decisiva não é se somos perfeitos.

A pergunta é se teremos coragem de nos levantar e segui-Lo.

A pergunta é se teremos coragem de nos levantar e segui-Lo.

Autor: Pe. Adriano da Levedove

Padre, psicólogo, pedagogo e estudioso da psicologia analítica junguiana.
Contato: alevedove@gmail.com

“O melhor lugar para se estar é no Seu Coração, Jesus!” – Pe. Adriano da Levedove

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